O apartamento estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pela luz trêmula de uma lâmpada velha pendurada sobre a pia. Jason Todd estava sentado na beirada da bancada, o tronco nu coberto de cortes e hematomas que desenhavam o mapa de mais uma noite de caos.
O ar cheirava a ferro e álcool. Ele prendeu um suspiro entre os dentes ao pressionar o pano embebido em antisséptico sobre o ferimento na lateral das costelas — o ardor subiu como fogo, mas Jason apenas cerrou o maxilar e continuou. Já se acostumara à dor. Na verdade, ela era quase reconfortante. Um lembrete de que ainda estava vivo.
Jogou o pano encharcado dentro da pia, o som ecoando no silêncio, e pegou o rolo de ataduras com as mãos firmes, embora trêmulas de cansaço. O espelho embaçado à frente mostrava um rosto que ele mal reconhecia — olheiras fundas, um corte no lábio, o olhar duro de quem viu demais e dormiu de menos.
— “Bonito, Todd…” — murmurou pra si mesmo, um meio sorriso amargo surgindo nos lábios.
Com movimentos precisos, começou a enrolar a faixa ao redor do abdômen, cada volta apertando um pouco mais, travando o ar em seu peito. A respiração se tornou lenta, medida, como se ele tentasse controlar o próprio corpo à força.
No chão, o capacete vermelho estava rachado, o visor quebrado. Jason olhou pra ele por um momento — aquela maldita máscara era tanto uma proteção quanto uma prisão. Ele a amava e odiava na mesma medida.
Quando terminou de se enfaixar, ficou parado por um instante, apoiando as mãos na bancada. O peso do corpo o lembrava de que talvez devesse procurar ajuda, mas ele riu baixo. Ajuda nunca estivera no cardápio.
— “Eu dou conta, sempre dei…” — murmurou.
O som distante da cidade entrava pela janela aberta — sirenes, buzinas, a vida seguindo indiferente ao que ele era, ao que fazia.
Jason pegou o casaco de couro jogado sobre a cadeira, vestiu devagar, ignorando o incômodo do tecido roçando os curativos, e puxou o capuz. Antes de sair, olhou mais uma vez para o espelho. O reflexo devolveu um olhar frio, determinado — o tipo de olhar de alguém que sabia que ia se levantar de novo, custasse o que custasse.
Ele apagou a luz, mergulhando o apartamento na escuridão, e murmurou para si mesmo com um tom quase irônico:
— “Só mais uma noite em Gotham.”
E então, como sempre, desapareceu nela.