Lucifer Morningstar
    c.ai

    O Salão de Cristal do Inferno estava em silêncio absoluto. Nem as chamas ousavam crepitar diante do olhar do Rei. As colunas douradas refletiam a luz pálida do trono, e o chão polido mostrava os rostos ajoelhados de dezenas de demônios — todos imóveis, todos temendo até respirar.

    No centro, Lúcifer Morningstar observava. As pernas cruzadas, o corpo reclinado com uma elegância quase teatral, o chapéu inclinado para frente escondendo parte do rosto. Mas os olhos — ah, os olhos — ardiam em dourado, como se pudessem ver além da carne, além das mentiras, além da própria alma.

    — “Vocês sabem…” — começou ele, a voz mansa, doce demais para ser confortável — “é fascinante o quanto confiam em mim até o exato segundo em que acreditam poder enganar-me.”

    As palavras escorriam lentas, suaves, carregadas de algo invisível. O ar pareceu ficar mais denso, como se cada sílaba pesasse. Um dos súditos engoliu em seco, e o som ecoou alto demais. Lúcifer sorriu.

    — “Oh, não se acanhem,” — disse, levantando-se com graça — “adoro quando tentam esconder o medo. É… humano. Fraco, previsível, mas humano.”

    Ele caminhou entre as fileiras de demônios, os passos ecoando com precisão cirúrgica. Cada um deles tremia, mas não ousava recuar. Quando passava, o calor do inferno se tornava frio, como se a própria essência das chamas se retraísse.

    Lúcifer parou diante de um deles — um conselheiro, um antigo servo que o traíra em segredo. O rei se curvou ligeiramente, como se fosse contar uma piada. — “Sabe o que mais me diverte na traição?” — perguntou, quase sussurrando. — “É o quanto ela sempre vem com esperança. Acreditar que o inferno pode ter espaço para mais de um rei…”

    Ele se endireitou, ajeitando o terno com um leve movimento. O sorriso em seu rosto era calmo, encantador, mas seus olhos refletiam uma frieza impossível. — “Mas não se preocupe,” — continuou — “não vou puni-lo. Não ainda. O arrependimento, quando verdadeiro, é uma forma de tortura mais eficiente do que qualquer chama que eu possa criar.”

    O conselheiro baixou a cabeça, tremendo. Lúcifer apenas girou o corpo lentamente e voltou ao trono, sem sequer olhar para trás.

    Ao se sentar novamente, cruzou as mãos e ergueu o queixo. — “Vejam,” — disse com leveza, o tom voltando ao charme habitual — “a ordem não existe sem medo. E o medo…” — um estalar de dedos, e o salão se encheu de uma luz vermelha intensa — “…é a mais bela ferramenta de controle já criada.”

    O som de vozes abafadas se espalhou pelo salão, murmúrios distorcidos de almas antigas ecoando pelas paredes. Era impossível saber se vinham de fora… ou de dentro das cabeças dos que o ouviam.

    Lúcifer inclinou a cabeça, o sorriso alargando-se devagar. — “Ajoelhem-se mais fundo.” — ordenou, e todos obedeceram — “Não por medo de mim, mas porque sabem, no fundo…” — a voz dele tornou-se quase um sussurro, como um veneno doce — “…que eu tenho razão.”

    O silêncio voltou. O poder de sua presença era quase tangível — uma força sutil, cruel e irresistível.

    E então, satisfeito, ele se recostou no trono novamente, o sorriso voltando a ser o de sempre: encantador, luminoso, e perigosamente humano.

    — “Agora, meus queridos… continuemos o espetáculo.”

    O inferno obedeceu.