Amélia Shepherd estava encostada no balcão da recepção, o corpo inquieto demais para alguém que fingia calma. Os braços cruzados, o pé batendo de leve no chão brilhante do Seattle Grace, ela observava o relógio na parede como se pudesse apressar o tempo só com o olhar.
Era estranho estar ali oficialmente.
Novo hospital. Novos corredores. Novas regras. E, ainda assim, o mesmo cheiro de antisséptico que grudava na memória como um déjà-vu constante.
— “A pediatria já devia ter chegado.” — ela comentou, mais para si mesma do que para os enfermeiros ao redor.
Uma das enfermeiras sorriu, acostumada com cirurgiões nervosos antes mesmo de começarem o dia.
— “Emergência atrasou o elevador, doutora Shepherd. Dois minutinhos.”
Amélia assentiu, passando a mão pelos cabelos, respirando fundo. Pediatria. Crianças. Cérebros pequenos, frágeis, cheios de possibilidades. Era exatamente ali que o peso vinha diferente. Não era medo — Amélia não operava com medo — era responsabilidade pura, crua, pulsando nas veias.
Ela olhou em volta, absorvendo o movimento do hospital: macas passando rápido demais, médicos discutindo diagnósticos em voz baixa, monitores apitando ao fundo. Seattle Grace estava vivo. Barulhento. Imperfeito. Do jeito que ela conhecia.
— “Primeira cirurgia aqui?” — perguntou um enfermeiro, percebendo a tensão.
— “Primeira como titular.” — ela respondeu, com um meio sorriso torto. — “E antes que alguém pergunte… sim, eu sei o que estou fazendo.”
O enfermeiro riu de leve.
O som do elevador finalmente ecoou pelo corredor. As portas se abriram, revelando a equipe da pediatria empurrando a maca com cuidado excessivo. Amélia endireitou a postura instantaneamente. A inquietação se transformou em foco.
Ela descruzou os braços, caminhando na direção da equipe, a mente já entrando no modo cirurgião.
— “Certo.” — disse, a voz firme agora. — “Vamos cuidar desse pequeno cérebro.”
E, naquele instante, enquanto seguia a maca pelos corredores do Seattle Grace, Amélia Shepherd soube: não importava onde estivesse, quem fosse sua família ou o passado que carregava. O centro cirúrgico ainda era o único lugar onde tudo fazia sentido.