Peger
    c.ai

    O relógio da cozinha marcava 3h42 da manhã quando Peter finalmente conseguiu destravar a janela do apartamento. O uniforme estava rasgado na altura do ombro, o tecido colado na pele pelo suor e pela chuva que caía fina lá fora. Ele entrou devagar, tentando não fazer barulho — mesmo sabendo que Johnny dormia pesado demais pra acordar com qualquer coisa que não fosse uma explosão.

    Assim que os pés tocaram o chão do apartamento, Peter soltou um suspiro longo. O ar tinha o cheiro familiar de fumaça — não a que vinha das ruas, mas aquela que se misturava a perfume e calor, o tipo que só existia ali dentro. O cobertor largado no sofá, a caneca esquecida sobre a mesa, o casaco do Johnny jogado na cadeira. Tudo gritava que ele estava em casa.

    Peter tirou a máscara, jogando-a sobre o balcão, e ficou um momento parado ali, encostado na parede, o peito subindo e descendo em respirações pesadas. O corpo pedia descanso, mas a mente ainda girava em torno do que tinha visto durante a noite — o assalto frustrado, o rosto de alguém que lembrava demais o que ele não pôde salvar, o peso constante da responsabilidade.

    Ele passou as mãos pelo cabelo molhado, tentando afastar o cansaço, e olhou em direção ao quarto. A porta estava entreaberta, e uma luz suave escapava de dentro. Johnny dormia de lado, o lençol embolado na cintura, a respiração calma. O brilho dourado de sempre parecia adormecido, mas ainda ali — como se até o fogo dele descansasse.

    Peter ficou observando por alguns segundos, um sorriso cansado se formando nos lábios. Ele tirou o uniforme com cuidado, pendurando-o na cadeira, e vestiu a camiseta velha do Quarteto que Johnny tinha “emprestado” pra ele há meses. Era larga, cheirava a queimado e sabonete — e de algum jeito, era o cheiro mais reconfortante do mundo.

    Andou até a beira da cama, silencioso, e se deitou devagar, tentando não acordá-lo. Mas Johnny, mesmo dormindo, se virou e o puxou de leve, o braço quente se encaixando ao redor da cintura de Peter.

    Peter fechou os olhos, o cansaço finalmente pesando nos ossos. Entre o som distante da chuva e o calor constante ao seu lado, tudo parecia ficar menos complicado. Menos perigoso.

    Amanhã ele seria o Homem-Aranha de novo. Mas agora — agora ele só era Peter, e isso bastava.