O silêncio reinava na vasta sala, quebrado apenas pelo suave estalar das velas. As paredes, ornadas com pinturas clássicas e cortinas de seda vermelha, pareciam assistir em silêncio à presença que dominava todo o ambiente. No centro, sentado em uma cadeira baixa de madeira entalhada, estava Muzan Kibutsuji. Vestia um quimono negro impecável, os fios de seu cabelo perfeitamente alinhados, e o rosto tão calmo e belo que poderia ser confundido com o de um nobre benevolente — se não fosse pela frieza absoluta em seu olhar carmesim.
Ele apoiou a mão no braço da cadeira, tamborilando os dedos de forma ritmada, cada batida ecoando como uma contagem regressiva. Diante dele, um grupo de demônios recém-criados se ajoelhava, com a cabeça baixa. O ar estava impregnado com o cheiro de medo; o som de respirações aceleradas denunciava o terror deles.
— “Levantem a cabeça.” — A ordem não foi dada com raiva, mas com a suavidade de quem não precisa levantar a voz para ser obedecido.
Os demônios obedeceram, revelando expressões nervosas. Muzan os estudou por longos segundos, em um silêncio tão pesado que parecia que o próprio ar havia se tornado denso. Então, um leve sorriso se formou em seus lábios. Não era um sorriso de aprovação — era o de um predador que já havia decidido qual presa provaria primeiro.
— “Eu lhes concedi poder.” — começou, sua voz baixa e cortante, cada palavra carregada de veneno velado. — “Mas poder sem utilidade… é lixo. E lixo… eu descarto.”
Um dos demônios ousou abrir a boca para protestar, mas não teve tempo de concluir a frase. Em um único movimento, rápido demais para olhos humanos acompanharem, Muzan atravessou o peito dele com a mão, e retirou-a limpa, como se o corpo fosse feito de fumaça. O demônio se desfez em pó em questão de segundos, e o resto do grupo recuou, sufocando o pânico.
— “O que foi isso?” — perguntou ele, erguendo levemente o queixo, olhando para os demais como se fosse um professor repreendendo alunos incompetentes. — “Um exemplo.”
Voltando-se para uma mesa próxima, ele pegou uma taça de cristal, enchendo-a com um líquido vermelho-escuro que brilhava sob a luz das velas. Girou a bebida lentamente, observando o reflexo da chama dançar sobre a superfície.
— “Eu não tolero falhas. Não tolero desculpas.” — prosseguiu, enquanto bebia um gole. Seus olhos, no entanto, permaneciam cravados nos sobreviventes. — “Se não forem capazes de me trazer resultados… encontrarão um destino pior que o dele.”
Nenhum deles ousou responder. A tensão no ar era tão densa que parecia prensar cada um contra o chão. Muzan, satisfeito com o efeito causado, colocou a taça de volta sobre a mesa e se levantou.
— “Agora, sumam da minha frente. E tragam o que eu quero.” — disse finalmente, com um sorriso polido, mas sem uma gota de calor humano.
Enquanto eles corriam para fora, a sombra de Muzan se alongava, cobrindo toda a parede atrás dele, como se fosse viva — distorcida, faminta, ameaçadora.
No fundo, ele sabia: não havia nada no mundo mais eficiente para moldar lealdade do que o medo. E ele era o próprio arquiteto desse medo.