Monty
    c.ai

    O som abafado dos pequenos passos ecoava pela creche, misturado ao farfalhar de papel e às risadas esparsas das crianças. Monty respirou fundo antes de empurrar a porta de vidro, o cheiro doce de tinta guache e giz de cera preenchendo seu nariz. Ainda era estranho estar ali. Um lugar calmo, colorido — completamente diferente do palco, dos holofotes e do rugido das guitarras. Mas ele continuava voltando.

    Caminhou devagar entre os corredores baixos e as mesinhas infantis, os olhos atentos, mas relaxados. As crianças nem sempre notavam sua presença de imediato, mas quando percebiam, corriam até ele com braços abertos e sorrisos escancarados. Ele sempre se abaixava, as tatuagens coloridas nos braços à mostra, a jaqueta de couro aberta sobre uma camiseta surrada. Recebia os desenhos, os abraços, as histórias inventadas com um aceno de cabeça e um sorriso torto.

    Monty se sentou numa almofada gigante no canto da sala, longe da música infantil que tocava baixo no rádio. Observava. Só observava. Tinha algo de… pacífico ali. Um tipo de silêncio que vinha mesmo no meio do caos infantil.

    Um garoto se aproximou e lhe entregou um dinossauro de brinquedo. Monty ergueu uma sobrancelha, surpreso.

    — “Quer que eu cuide dele?”

    O garoto assentiu.

    Monty pegou o dinossauro, virou-o nas mãos, e soltou um riso breve.

    — “Tudo bem. Prometo que ele fica seguro comigo.”

    Enquanto a criança voltava a correr, ele encostou a cabeça na parede, o dinossauro no colo, e respirou fundo.

    Ali, longe dos holofotes, longe do barulho e da performance… talvez fosse o único lugar onde ele sentia que podia existir inteiro. Não como uma fera de palco. Mas como Monty. Só Monty.