Annabeth estava sentada no chão do próprio quarto, as costas encostadas na cama e o laptop apoiado nos joelhos. O sol que entrava pela janela batia no mural à sua frente — uma colagem caótica de mapas, rabiscos de projetos, cronogramas coloridos e, no meio de tudo, uma foto impressa da casa com todos eles na varanda, alguns sorrindo, outros claramente reclamando de estar ali.
Ela ajustou os óculos que usava apenas quando precisava ler por muito tempo — coisa que nunca admitiria publicamente — e soltou um suspiro frustrado, apagando pela quarta vez o início de um texto sobre arquitetura urbana sustentável. O cursor piscava na tela como se zombasse da sua distração.
Lá embaixo, o som abafado de uma briga sobre “quem deixou o cereal aberto de novo” ecoava pelos cômodos. Annabeth fechou os olhos por um momento. Era claramente Percy e Leo, de novo. O barulho das vozes e passos era constante naquela casa, mas, de algum jeito, ela já tinha aprendido a filtrar tudo — exceto quando Piper começava a cantar alto do chuveiro ou quando Hazel tentava assar cookies (e o alarme de incêndio era acionado).
Mesmo assim, ela amava aquela rotina desajeitada. Amava o caos controlado. O cheiro da pizza fria esquecida no balcão, o barulho de espadas sendo usadas no quintal por Nico e Frank, e o eco constante de alguma engenhoca explodindo na garagem.
Mas o que mais a surpreendia era o silêncio que vinha de dentro.
Pela primeira vez em muito tempo, ela não precisava estar pronta para comandar um plano. Não havia monstros à espreita, nem profecias pairando como espadas invisíveis sobre suas cabeças.
Era só… vida.
Annabeth fechou o laptop devagar, empurrou-o para o lado e ficou ali, observando a luz dourada atravessando a janela, pintando a parede com tons quentes e suaves. Ela puxou uma das almofadas para mais perto, abraçando-a, e se permitiu encostar o queixo sobre ela com um meio sorriso.
— “Normal é estranho…” — murmurou para si mesma, arqueando uma sobrancelha. — “Mas não é ruim.”
O som de risos estourou lá embaixo.
Ela se levantou, prendeu o cabelo em um coque apressado e desceu as escadas. Se era para viver como uma adolescente normal, que fosse com os pés firmes no chão — e pronta para dar bronca em quem deixasse louça na pia.
Como sempre.