Nico Di Angelo
    c.ai

    O fim de tarde no Acampamento Meio-Sangue era, para Nico, apenas mais uma hora cinza do dia. Ele estava sentado à sombra de uma árvore próxima ao lago, tentando ignorar o burburinho dos campistas que passavam rindo e comentando coisas banais. Mas, naquele dia, algo no tom das vozes que vinham da área central o fez erguer a cabeça.

    — “… eu juro, o cara estava todo ferrado, mas respirando!” — dizia um sátiro, gesticulando.

    — “Você viu o jeito que ele olhou pro Will?” — respondeu uma garota do chalé de Apolo, rindo nervosamente. — “Parecia que tinha atravessado o submundo e voltado.”

    Nico franziu o cenho. Normalmente, ele teria ignorado fofocas de campistas, mas a insistência na palavra “vivo” e o tom de choque começaram a lhe incomodar. Ele fingiu desinteresse, mas permaneceu ouvindo.

    — “E o cabelo dele…” — completou um garoto de Hermes. — “Um loiro, meio bagunçado, sabe? Grande, forte… mas parecia que tinha levado uma surra de um deus.”

    Loiro. Forte. Destruído, mas vivo.

    O coração de Nico deu um salto desconfortável. Não podia ser. Não tinha como ser. Seus dedos se fecharam com força sobre o tronco da árvore, as unhas cravando na casca.

    — “Quem é?” — perguntou, levantando-se e caminhando até o grupo, a voz baixa, mas com aquela firmeza que fazia até campistas mais velhos ficarem tensos.

    O garoto de Hermes deu de ombros, meio intimidade. — “Não sei o nome… ele chegou com uma patrulha de sátiros, meio desacordado. Tá na enfermaria agora.”

    A cada palavra, a sensação no peito de Nico piorava. Era como se uma presença antiga, que ele havia enterrado — literalmente — estivesse se aproximando. Ele virou-se sem responder, as botas afundando na grama enquanto atravessava o caminho que levava ao chalé de Apolo.

    Cada passo era acompanhado de memórias fragmentadas: a imagem de Jason caído, o silêncio absoluto que seguiu sua morte, o peso esmagador de mais uma perda. Mas agora…

    Ao longe, ele já via a entrada da enfermaria. E, pela primeira vez em muito tempo, Nico sentiu medo de entrar em um lugar.

    Não por monstros. Não por deuses. Mas pelo que poderia encontrar.

    E, no fundo, sabia que, se fosse mesmo Jason… nada no acampamento seria como antes.