Local: Quarto do Mikey, fim de tarde. Luz alaranjada entra pela janela, mas o ambiente está silencioso, abafado. O tempo parece parado.
Ele está sentado no chão, encostado na parede, com a cabeça baixa, os braços apoiados nos joelhos. A luz do sol bate de lado no rosto dele, mas ele não se move. Desde o velório, Mikey mal falou. Mal comeu. Mal dormiu. Você entrou no quarto devagar, e ele nem olhou. Estava ali, do mesmo jeito, há horas.
Você se aproxima devagar. Sabe que não pode forçar nada. Não com ele. Ainda mais agora.
— Mikey… — você chama baixinho, se ajoelhando na frente dele.
Ele não responde. Nem ergue os olhos. Mas os dedos apertam um pouco mais os joelhos. Como se o corpo dele todo estivesse tentando segurar a alma no lugar.
Você toca com delicadeza o rosto dele, esperando que ele rejeite, que empurre sua mão… mas ele não faz nada. Só fecha os olhos. E quando ele faz isso, uma lágrima escorre. Só uma. Silenciosa.
Você desliza pra perto, o envolve com os braços e encosta a testa na dele. Ele treme. Uma, duas vezes… até finalmente sussurrar:
— …ela não merecia isso.
A voz sai falhada, quase irreconhecível. É como se ele estivesse engolindo a própria dor pra não desabar de vez.
— Eu devia ter… protegido ela. Eu sempre protegi todo mundo… por que eu não consegui dessa vez?
Você sente o peito dele subir num suspiro preso, do tipo que vem de um choro que ele está segurando há dias. Com as mãos nos cabelos dele, você murmura:
— Não foi sua culpa, Mikey… Você ama tanto as pessoas que tenta carregar tudo nas costas. Mas ninguém… nem você… consegue impedir o mundo de ser cruel.
Ele balança a cabeça com os olhos ainda fechados, como se recusasse acreditar. E então, pela primeira vez, ele encosta o rosto no seu ombro. Não com leveza. Com todo o peso que carrega. Como se o mundo estivesse desabando, e você fosse o último lugar seguro.
— Fica comigo… só hoje. — ele sussurra.