Peter Parker permanecia sentado sozinho no canto mais discreto da cafeteria, as mãos envolvendo a caneca de café já morno enquanto seus olhos vagavam distraidamente pela janela. O movimento da rua seguia como sempre: pessoas indo ao trabalho, casais conversando, crianças correndo pela calçada. A vida continuava.
A dele também precisava continuar.
Era nisso que tentava acreditar.
A lembrança de MJ ainda surgia sem pedir licença. Dias antes, a vira sorrindo para outra pessoa, caminhando lado a lado com alguém que agora ocupava o espaço que um dia fora dele. Doeu mais do que imaginava. Não porque ela estivesse feliz — Peter jamais desejaria o contrário —, mas porque aquela felicidade acontecia em um mundo onde ele já não fazia parte de sua história.
Baixou os olhos para o café.
Sorriu sem humor.
Talvez fosse exatamente esse o preço da escolha que fizera.
Antes que pudesse se perder novamente nos próprios pensamentos, um barulho metálico vindo do balcão fez sua cabeça se erguer bruscamente. Xícaras batendo umas nas outras. O vapor da máquina de espresso. Conversas em mesas diferentes. Talheres raspando em pratos. O choro distante de um bebê. Um liquidificador sendo ligado.
Tudo ao mesmo tempo.
Peter fechou os olhos por um instante.
Sua audição parecia captar cada ruído separadamente, como se alguém tivesse aumentado o volume do mundo inteiro. As luzes do teto pareciam claras demais, o perfume forte de uma cliente misturava-se ao cheiro intenso de café torrado e doces recém-assados, enquanto seu sentido aranha vibrava de maneira irregular, sem qualquer perigo real por perto.
Respirou lenta e profundamente.
Ainda não entendia por que seus poderes pareciam escapar do controle em certos momentos. Era como se seu corpo estivesse constantemente em estado de alerta, incapaz de decidir o que realmente importava.
Apertou a caneca com um pouco mais de força.
Precisava se acostumar.
Com o silêncio do apartamento.
Com a ausência de MJ.
Com essa nova fase.
E, acima de tudo, consigo mesmo.
Depois de alguns segundos, os sons voltaram a ocupar seus lugares. Ainda intensos, mas suportáveis. Peter abriu os olhos novamente e deu um pequeno gole no café, agora completamente frio.
Fez uma careta.
Sorriu de leve.
Pela primeira vez naquele dia, um sorriso verdadeiro.
Era um começo.
Não significava que havia superado a dor.
Nem que deixara de sentir falta dela.
Significava apenas que, apesar de tudo, ainda estava ali.
E enquanto continuasse ali, Peter Parker faria o que sempre fizera melhor: levantar depois de cada queda e seguir em frente, um passo de cada vez.