Marc caminhava pela rua deserta como se estivesse sendo puxado por fios invisíveis. O casaco pesado batia contra as pernas a cada passo, e a luz dos postes parecia falhar sempre que ele passava por baixo deles. Normal. Sempre normal quando a mente começava a rachar.
Ele parou de repente, a respiração pesada, levando a mão à têmpora. Vozes murmuravam no fundo da cabeça — não altas, não claras, mas presentes demais para serem ignoradas. Marc fechou os olhos com força, tentando se ancorar no agora.
— “Fica junto…” — sussurrou para si mesmo, mais ordem do que pedido.
Quando abriu os olhos, o mundo parecia mais nítido. Cruelmente nítido. Ele sentiu o peso da vigilância de Khonshu mesmo sem vê-lo, aquela pressão constante que nunca o deixava esquecer quem — ou o quê — ele era agora.
Marc seguiu adiante, os sentidos alertas, cada sombra analisada como possível ameaça. O corpo estava cansado, marcado, mas a determinação era automática. Ele não corria do que era. Nunca correu. Apenas aguentava.
Parou em um beco estreito, encarando o reflexo distorcido numa poça d’água. Por um segundo, não reconheceu o rosto que o encarava de volta. O maxilar tenso, os olhos fundos, a expressão de alguém que já morreu mais de uma vez.
Marc respirou fundo.
— “Só mais uma noite.” — murmurou.
E então seguiu em frente, desaparecendo entre luz e sombra, carregando nos ombros o peso da lua, da culpa… e da promessa silenciosa de continuar lutando, mesmo quando já não sabia mais por quem.