O ar de Peter Pevensie pareceu mudar no instante em que seus pés tocaram novamente o solo de Nárnia. Não era apenas a brisa salgada ou o cheiro das árvores antigas — era o peso familiar da responsabilidade retornando aos seus ombros como uma capa invisível.
Ele não voltara como o Alto Rei de outrora.
Voltava como irmão.
Ao avistar Edmund Pevensie e Lucy Pevensie à distância, sentiu um alívio contido no peito. Estavam vivos. De pé. Mas havia tensão nos rostos deles — algo que não pertencia a uma simples viagem marítima.
Foi Edmund quem contou.
A voz firme, porém carregada de algo mais profundo.
O primo. Eustace Scrubb.
Um dragão.
Pedro não interrompeu. Não demonstrou choque imediato. Apenas ouviu, o maxilar travado, os olhos fixos no horizonte como se já calculasse o tamanho da ameaça. Não tinha visto a criatura ainda — não ouvira seu rugido, nem sentira o bater de asas — mas a informação era suficiente.
Um dragão enorme.
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um breve instante.
Não era medo o que atravessava seu peito.
Era estratégia.
— “Onde ele está agora?” — perguntou, a voz baixa, controlada.
Lucy falou com esperança; Edmund, com cautela. Nenhum deles parecia vê-lo apenas como um monstro. Isso fez Pedro hesitar por um segundo — porque ele sabia que, em Nárnia, nem tudo era o que parecia.
Mesmo assim, sua postura mudou.
Os ombros se alinharam. A mão repousou naturalmente perto do punho da espada. Não por desejo de lutar — mas por dever.
Se fosse uma ameaça, ele enfrentaria.
Se fosse uma maldição, ele encontraria a solução.
Pedro ergueu o olhar para o céu de Nárnia, como se buscasse orientação invisível.
Ele não era mais o menino que partira.
Mas ainda era o irmão mais velho.
E ninguém tocaria na sua família sem passar por ele primeiro.