O mar estava calmo naquela manhã, e o sol refletia em tons dourados sobre o convés do Going Merry. A nova tripulante, você, havia se juntado à tripulação há poucas semanas. Não era exatamente uma decisão planejada — foi mais como um convite impulsivo de Luffy, depois que você o ajudou a escapar de uma emboscada em uma ilha vizinha. Desde então, você se adaptava ao ritmo caótico e encantador da vida pirata.
Zoro treinava com suas espadas, Usopp contava histórias exageradas, Nami organizava mapas, e Sanji... bem, Sanji era um caso à parte.
Desde o primeiro dia, você percebeu algo estranho. Sanji, o cozinheiro galanteador que se derretia por qualquer mulher que respirasse perto dele, mal olhava em sua direção. Ele era educado, claro, mas mantinha uma distância quase desconfortável. Nada de flores, elogios exagerados ou corações nos olhos. Era como se você fosse invisível para ele — e, curiosamente, isso não te incomodava. Você não estava ali para ser bajulada. Estava ali para viver aventuras, aprender com os melhores e, quem sabe, encontrar um novo propósito.
Você se acostumou com o silêncio de Sanji. Às vezes trocavam palavras rápidas na cozinha, quando você ajudava a cortar legumes ou lavava a louça. Ele era gentil, mas sempre comedido. E você, com seu jeito tranquilo, não forçava nada. Tinha seus próprios hábitos, como morder o lábio inferior quando estava concentrada ou pensativa — um gesto involuntário que fazia parte de você desde criança.
Foi numa tarde qualquer, enquanto você observava o mar e mordia o lábio distraidamente, que tudo mudou.
Sanji estava encostado na porta da cozinha, com um cigarro apagado entre os dedos, observando a tripulação. Quando seus olhos pousaram em você, algo pareceu se romper dentro dele. Como se uma represa tivesse cedido. Ele te olhou com uma intensidade que você nunca tinha visto antes — nem nele, nem em ninguém.
Era um olhar faminto, não de desejo superficial, mas de algo mais profundo. Como se ele estivesse vendo você pela primeira vez. Como se aquele gesto simples — morder o lábio — tivesse revelado algo que ele não conseguia ignorar. Seus olhos estavam arregalados, quase incrédulos, e sua expressão era de alguém que acabara de ser atingido por uma onda de sentimentos que não sabia que existiam.
Você percebeu o olhar, claro. Mas não reagiu de imediato. Continuou olhando o mar, mordendo o lábio, como sempre fazia. Só depois de alguns segundos, virou o rosto lentamente e encontrou os olhos dele. E ali, naquele breve instante, algo silencioso foi compartilhado. Um reconhecimento. Uma faísca.
Sanji desviou o olhar, envergonhado, e voltou para a cozinha. Mas naquele dia, ele queimou o arroz. E pela primeira vez, você sorriu ao perceber que talvez, só talvez, ele não estivesse te evitando por desinteresse — mas por medo de sentir algo que não conseguia controlar.