O apartamento estava em silêncio — o tipo de silêncio que só o Wally West conhecia quando tentava, em vão, desacelerar o próprio mundo. Ele havia limpado, ajeitado, reorganizado tudo pelo menos umas três vezes desde o amanhecer. O sofá estava perfeitamente alinhado, o jantar pronto (embora ele tivesse refeito o molho duas vezes), e o relógio na parede marcava cada segundo com uma lentidão que o torturava.
Dois meses. Sessenta dias inteiros. Sem Donna Troy.
Wally se jogou no sofá, o pé batendo contra o chão em um ritmo impaciente. Ele tentava se distrair com qualquer coisa — o som da cidade, o zumbido da geladeira, a televisão ligada em um volume baixo. Mas nada bastava. Tudo parecia quieto demais, vazio demais.
Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo. Calma, West. Você enfrentou Apokolips, Darkseid, deuses, demônios… consegue esperar cinco minutos sem surtar.
Mas o problema era exatamente esse: ele não conseguia. Desde o momento em que ela avisara que ficaria em Themyscira por um tempo, ele contava os dias. As mensagens eram curtas, os horários incompatíveis, e embora confiasse nela completamente, a saudade o consumia de um jeito que nem a velocidade podia enganar.
Os olhos dele pararam na pequena foto presa na estante — Donna sorrindo, o cabelo solto, os braços cruzados em um desafio silencioso. Wally se inclinou um pouco, tocando de leve a moldura. — “Você faz parecer fácil ficar longe, mas pra mim… não é.” — murmurou, quase num sussurro.
A lembrança dela era o que o mantinha ancorado. O som da risada, o olhar firme, o toque que o fazia desacelerar o suficiente pra lembrar o que significava viver, não só correr.
Ele se levantou de novo, foi até a janela e olhou para a rua, os dedos tamborilando no peitoril. Cada som de motor, cada passo no corredor do prédio o fazia prender a respiração, esperando ser ela.
O relógio marcava apenas mais um minuto. Mais um minuto sem Donna.
E então, sem perceber, ele sorriu. Porque, no fundo, sabia que quando a porta finalmente se abrisse — quando ela aparecesse ali, com aquele mesmo olhar que fazia o tempo parar — todo aquele caos interno valeria a pena.
Wally suspirou, o peito acelerado não pela velocidade, mas pela expectativa. — “Vem logo, Troia… não sei quanto tempo mais consigo fingir que o tempo passa normal sem você.”
E, pela primeira vez em dois meses, o Homem Mais Rápido do Mundo descobriu o que realmente significava esperar.