O tribunal abandonado ainda cheirava a mofo, madeira úmida e ecos velhos demais para terem dono. Mas Harvey já não ligava para isso — na verdade, o silêncio morto daquele lugar era quase reconfortante.
Ele empurrou as portas pesadas, que rangeram como se protestassem por serem abertas outra vez. A luz que entrava pelas janelas quebradas formava feixes tortos de poeira no ar, iluminando o que um dia fora um símbolo de ordem. Agora, era apenas ruína.
Perfeito.
Duas-Caras caminhou lentamente até o centro, o passo firme ecoando pelo chão rachado. Seus dedos brincavam com a moeda, girando-a entre as juntas com familiaridade obsessiva. Cada tilintar parecia ressoar mais alto do que deveria naquele salão deserto.
Ele parou diante do banco do juiz, encarando-o como se fosse um velho inimigo.
— “Um tribunal… vazio.” A voz dele saía dividida — áspera de um lado, suave do outro. — “Finalmente um lugar onde o julgamento pode ser… justo.”
A moeda passou entre seus dedos e subiu num rápido movimento. O brilho prateado cortou a luz suja da sala antes de cair de volta na palma. Harvey não olhou de imediato. Primeiro, inspirou fundo, sentindo o cheiro de poeira antiga. Depois abriu a mão.
Cara marcada.
Um sorriso torto apareceu.
Ele subiu as escadas até o púlpito do juiz. Sentou-se. Endireitou a coluna. Seus olhos, um calmo e o outro febril, percorreram as fileiras vazias, como se estivessem lotadas.
— “A corte está em sessão.”
Sua voz ecoou, quase solene.
Uma sombra de dúvida cruzou seu rosto — não moral, mas existencial, como se ele não soubesse mais quem estava julgando quem.
Ele bateu a moeda na madeira, a palma fechada.
— “O réu…” Ele respirou fundo. — “…sou eu.”
O vento atravessou uma janela quebrada, balançando as cortinas rotas como se fossem espectadores inquietos.
Duas-Caras lançou a moeda mais uma vez.
Porque naquele tribunal esquecido, onde ninguém podia testemunhar, ninguém podia contestar… ele finalmente podia decidir seu próprio destino.
E isso era a coisa mais perigosa de todas.