John Constantine
    c.ai

    O céu de Londres estava coberto de uma névoa densa, o tipo de cortina cinzenta que parecia nascer do próprio asfalto — e John Constantine andava por ela como quem já conhecia cada sombra de cor. O sobretudo gasto balançava com o vento gelado, o cheiro de cigarro e chuva o acompanhando como uma segunda pele.

    Era mais uma noite amaldiçoada.

    O ponteiro do relógio marcava quase três da manhã quando ele chegou ao prédio abandonado em Camden. As janelas estavam quebradas, e algo sussurrava lá dentro — vozes que não eram humanas, nem completamente mortas. Ele suspirou fundo, tragou o cigarro até o filtro e o jogou no chão, esmagando-o com a ponta do sapato.

    — “Sempre às três da manhã…” — murmurou, acendendo outro. — “Os demônios devem amar o clichê.”

    Atravessou o portão enferrujado, os passos ecoando pelo corredor coberto de pichações e sangue seco. Cada parede pulsava com energia antiga — magia bruta, maldita. Ele já sentia a pele formigar. E no meio da sala principal, um círculo de invocação mal feito brilhava em vermelho. Um grupo de amadores, talvez ocultistas de internet, havia mexido com o que não entendia.

    — “Ah, ótimo…” — resmungou — “Crianças brincando com o inferno. O que poderia dar errado?”

    John tirou do bolso um frasco de água benta (roubada de uma igreja onde ele definitivamente não era mais bem-vindo), desenhou um novo selo com o polegar e começou a murmurar em latim. As palavras fluíam arrastadas, meio desrespeitosas, meio cansadas — típicas dele.

    Mas o ar mudou.

    Uma presença se ergueu do chão — densa, quente, irreal. Um par de olhos carmesim se abriu no escuro, e uma voz grave ecoou pelo cômodo: — “Você não deveria ter vindo, Constantine.”

    Ele deu uma risada curta, sem humor. — “Você não deveria ter sido invocado por um grupo de adolescentes tentando impressionar o TikTok.”

    O demônio rosnou, o chão tremendo sob os pés dele. As sombras se estenderam pelas paredes, engolindo o teto. Constantine apenas ajeitou o colarinho, tirou o cigarro da boca e soprou a fumaça em direção à criatura.

    — “Escuta, grandão. Eu não tô aqui pra brigar. Só pra te mandar de volta pro buraco de onde veio. Você sabe como é… limpeza de rotina.”

    Com um movimento rápido, ele abriu o isqueiro — e a chama dançou no ar como se obedecesse à sua vontade. O círculo no chão brilhou, a luz vermelha se tornando dourada por um instante. O demônio uivou, a voz reverberando como mil ecos.

    John manteve o olhar firme, o rosto iluminado pela chama, os olhos cansados, mas inquebráveis. — “Em nome de quem quer que ainda tenha paciência comigo… fora.”

    E, num clarão repentino, tudo cessou. O ar esfriou. A presença se dissipou. O prédio ficou em silêncio.

    Constantine ficou ali por alguns segundos, apenas respirando. O cigarro havia caído da boca e queimava lentamente o chão. Ele pegou outro do bolso, acendeu com o mesmo isqueiro e deu uma tragada longa.

    — “Mais um dia no paraíso.” — murmurou, olhando para o teto rachado. — “E ainda acham que eu preciso de terapia.”

    O vento soprou pela porta quebrada. Ele ajeitou o sobretudo, enfiou as mãos nos bolsos e foi embora — como sempre fazia — deixando apenas o cheiro de fumaça e magia atrás de si.