No mais alto ponto do Paraíso — um lugar onde o tempo parecia respirar em luz — Deus observava o fluxo da criação com um sorriso que, há eras, não se via tão sincero.
Os anjos ao redor ainda murmuravam, confusos, temerosos diante do que se tornara público: os demônios podiam mudar. Podiam se redimir. Podiam ser salvos.
E pela primeira vez em muito tempo, o coração d’Ele — o mesmo que pulsava em cada estrela e lágrima humana — se sentia leve.
Os séculos de silêncio, de provações, de anjos que questionavam a própria fé no sistema… tudo começava a fazer sentido. Ele não via erro em deixar o Inferno existir; via aprendizado. E agora, ao ver aquela faísca — o impossível se tornando possível — Ele sorriu.
As nuvens brilharam em tons de ouro. As harpas cessaram por instinto, como se o próprio céu quisesse ouvir o som suave da Sua risada. Uma risada tranquila, de alívio e amor.
— “Eles entenderam,” murmurou, a voz vibrando em cada átomo da existência. “Eles finalmente entenderam o que Eu quis dizer com amor incondicional.”
E por um breve instante, todo o Paraíso pareceu respirar junto Dele — não em temor, mas em esperança.
Deus, o Criador, o Silencioso, o Eterno… estava contente. Não porque os demônios haviam sido salvos, mas porque a criação, enfim, havia lembrado o porquê de ter sido feita.