As luzes irregulares de neon piscavam no alto, tingindo de vermelho e verde as paredes enferrujadas do antigo galpão. O símbolo grotesco do Coringa se projetava no painel central, um riso distorcido ecoando pelos alto-falantes, lembrando a todos ali que aquele não era um jogo comum. Os competidores se entreolhavam, tensos, respirando rápido, alguns já à beira do desespero.
Chishiya, porém, permanecia parado, encostado em uma coluna de concreto, os braços cruzados. Os olhos semicerrados brilhavam sob a luz artificial, atentos a cada detalhe — os movimentos dos jogadores, a disposição do cenário, até mesmo as microexpressões de medo estampadas nos rostos. Nada passava despercebido.
Ele lembrava. Lembrava de cada partida, de cada risco corrido, de cada rosto que desapareceu ao seu redor. Lembrava da frieza com que jogara, mas também da dor sutil que se escondia nas entrelinhas da sobrevivência. O peso dessas memórias não o paralisava — pelo contrário, tornava-o ainda mais afiado. “Eu já estive aqui antes, de mil formas diferentes. E sobrevivi. O Coringa não é exceção.”
Quando a voz distorcida do mestre de jogo explicou as regras, os demais mergulharam em confusão, tentando entender como escapar da lógica distorcida do Coringa. Chishiya, em silêncio, já montava o quebra-cabeça dentro da mente. Calculava probabilidades, testava possibilidades, descartava opções inviáveis com a mesma calma de quem movia peças em um tabuleiro de xadrez.
Enquanto alguns discutiam em voz alta, o loiro caminhava devagar pelo espaço, os passos leves ecoando contra o chão metálico. Passava os dedos pelas bordas de uma mesa, observava as cartas espalhadas, reparava nos cronômetros piscando nas paredes. Cada detalhe alimentava o mapa que ele construía mentalmente.
— “Vocês estão pensando na saída errada,” — disse finalmente, a voz baixa mas cortante, fazendo todos voltarem os olhos para ele. — “O jogo não é sobre vencer rápido. É sobre entender quem aqui vai se quebrar primeiro.”
O silêncio que se seguiu era quase palpável. Alguns engoliram em seco, outros desviaram o olhar. O Coringa, como se se divertisse, soltou mais uma gargalhada pelos alto-falantes.
Chishiya, porém, manteve o mesmo semblante calmo, quase entediado. Por dentro, sabia que estava de volta ao inferno que já conhecia — mas, ao mesmo tempo, sentia o frio da adrenalina despertando em suas veias. Esse era o seu território.
“Seja qual for o truque do Coringa… já aprendi a linguagem desse mundo. E vou sobreviver, de novo.”