O sol da tarde descia preguiçoso sobre Coast City, tingindo o céu com tons de dourado e laranja — o tipo de luz que fazia Hal Jordan sentir que o mundo, por mais confuso que fosse, ainda podia ser simples por alguns instantes. O som do motor de seu carro era constante, familiar, um zumbido grave que o ajudava a pensar. Ele sempre foi alguém acostumado a voar, não a dirigir — mas hoje, o ar calmo e o asfalto quente pareciam mais apropriados do que o frio silencioso do espaço.
O trânsito fluía devagar, e Hal batucava os dedos no volante, olhando de relance para o assento vazio ao lado. Barry geralmente ia junto, rindo de alguma piada terrível ou se apressando porque “já estamos atrasados, Hal!”. Mas dessa vez, o velocista estava preso em uma reunião da Liga, e coube a ele, o piloto, o lanterninha, o homem que raramente seguia rotinas, buscar o pequeno Wally na creche.
O pensamento o fez sorrir — um daqueles sorrisos cansados, mas cheios de afeto. Wally. A pequena tempestade ruiva que havia transformado a vida de Barry em algo muito mais barulhento, e a dele também, por tabela. Desde que o garoto aprendera a dizer “tio Hal” (e a gritar “tio Hal!” em qualquer ocasião, mesmo as desastrosas), nada mais fora o mesmo.
O carro parou diante do portão colorido da creche. Crianças brincavam no pátio, gargalhando, enquanto as professoras tentavam manter alguma ordem naquele caos feliz. Hal desligou o motor, suspirou e apoiou os cotovelos no volante por um momento. Era estranho — ele enfrentava monstros intergalácticos, pilotava através de tempestades de plasma, mas cada vez que precisava lidar com algo tão simples e humano quanto pegar uma criança na escola… ele se sentia nervoso.
“Vamos lá, Jordan”, pensou, endireitando a jaqueta de couro. “Você sobreviveu à Tropa Sinestro, pode sobreviver a vinte crianças de quatro anos.”
Ao sair do carro, o vento morno soprou contra o rosto dele. Hal caminhou devagar até o portão, acenando meio desajeitado para uma das cuidadoras que o reconheceu de longe. Ela sorriu e entrou para chamar Wally. Hal ficou ali, as mãos nos bolsos, o olhar perdido por um instante. Ele sempre dissera que não era o tipo de homem feito para a vida doméstica — e ainda assim, de algum modo, Barry e o garoto tinham puxado esse lado dele à superfície.
Em poucos segundos, um pequeno vulto ruivo apareceu correndo, mochila balançando, o rosto iluminado por um sorriso largo. Hal sentiu o peito se apertar. Aquela energia pura, aquele entusiasmo — era impossível não ver Barry ali.
Ele se abaixou, abrindo os braços, e o garoto se jogou contra ele, rindo alto. — “Ei, parceiro!” — disse Hal, com a voz mais suave do que imaginava ser capaz. — “Como foi o dia, hein?”
Wally respondeu algo empolgado e impossível de entender, sobre desenhos, corrida e biscoitos. Hal apenas riu, balançando a cabeça, e o pegou no colo.
Enquanto caminhava de volta para o carro, o pequeno começou a tagarelar sem parar, e Hal apenas escutava — ou fingia escutar, mais encantado com a cena do que com as palavras. No fundo, uma parte dele se perguntava quando aquilo havia começado a parecer tão… certo.
Ele nunca sonhou em ter algo assim — uma casa, um parceiro que o fazia rir mesmo nos piores dias, uma criança correndo pelos corredores. E no entanto, ali estava ele: Hal Jordan, o Lanterna Verde, salvador de galáxias… equilibrando um garoto de quatro anos no colo e sentindo o coração leve.
Quando colocou Wally no banco de trás e ajustou o cinto, Hal o olhou pelo espelho retrovisor. O garoto acenava, ainda sorrindo, com os olhos brilhando sob a luz do fim de tarde. E naquele momento, Hal percebeu algo simples, mas profundo: às vezes, o verdadeiro heroísmo não estava em salvar mundos.
Estava em estar ali — de corpo, alma e coração — para as pequenas luzes que davam sentido ao universo.