A sala estava tomada pela luz dourada do entardecer do Inferno, aquele tom que parecia quente, mas nunca trazia conforto. Charlie estava sentada à mesa do hotel, revisando relatórios e desenhos de expansão — distraída, cantarolando baixinho, tentando convencer a si mesma de que o dia tinha sido bom.
Então ela ouviu. Uma frase. Um erro.
O tipo de erro que uma mente inocente quase deixaria passar — se não fosse dito na voz mais familiar do mundo.
Lúcifer, ao fundo do salão, falava casualmente com Alastor. Sorria como sempre, teatral, impecável. Mas entre risadas, soltou:
— “Sabe, é curioso como é fácil fazer os outros acreditarem que você foi o injustiçado.”
Charlie levantou o olhar. A frase parecia inocente, mas o tom… o tom tinha algo errado. Um orgulho frio, uma pontada de prazer na manipulação.
Ela observou o pai — o jeito como ele girava o copo na mão, o olhar satisfeito, o sorriso que não combinava com arrependimento. O mesmo homem que sempre dissera: “Eles nunca entenderam o que eu queria fazer pelo Céu, minha querida.” Mas agora… o modo como ele falava era diferente. Como quem se orgulhava de ter enganado todo mundo.
O coração dela apertou. Uma dúvida sutil se infiltrou entre as costelas, crescendo rápido demais.
Charlie esperou. Observou. Cada gesto dele era ensaiado, encantador. E de repente, uma memória estalou em sua mente — um detalhe que ela sempre ignorara: a forma como Lúcifer desviava o olhar quando ela falava em redenção. Como o sorriso dele endurecia por um instante, antes de voltar a ser gentil.
Ela levantou da cadeira, sem perceber. O chão pareceu longe. O ar, pesado.
“Foi fácil fazer os outros acreditarem…”
Aquela frase não parava de girar dentro dela, cortando como vidro. E quanto mais ela pensava, mais lembranças se encaixavam como peças de um quebra-cabeça cruel: pequenas mentiras, histórias distorcidas, olhares trocados entre ele e Lilith — olhares de quem compartilha um segredo que nunca deveria ser descoberto.
O erro de Lúcifer não foi a frase. Foi o orgulho nela.
Charlie sentiu o estômago revirar. Ela olhou para as próprias mãos — as mesmas que ele segurava quando dizia que acreditava nela, quando a chamava de “minha luz no escuro”. Agora, tudo parecia encenação.
Um arrepio subiu pela espinha.
Ela recuou um passo. E depois outro. Não fez barulho, não chorou — não ainda. Só caminhou até o corredor, o olhar fixo no chão, sentindo o coração bater rápido demais.
Quando a porta do quarto se fechou atrás dela, o som ecoou como um disparo.
Charlie encostou as costas na parede e respirou fundo, mas o ar parecia ácido. O pai dela — o anjo caído que ela sempre defendeu, o símbolo do sonho de redenção — nunca quis ser salvo. Ele apenas soube mentir bem o suficiente para que ela acreditasse.
E agora, pela primeira vez em toda a sua vida, Charlie sentia medo. Não do Inferno. Mas do homem que ensinou a ela o significado da palavra “amor”.