Yelena
    c.ai

    Yelena Belova permaneceu parada no centro da sala, os ombros rígidos e as mãos fechadas atrás das costas para esconder o quanto seus dedos tremiam.

    À sua frente estava o Soldado Invernal.

    Não Bucky.

    Não o homem que aprendia a cozinhar café horrível para a equipe.

    Não o homem que reclamava de tecnologia moderna.

    Não o homem que, às vezes, ficava horas ouvindo os outros falarem sem perceber que já fazia parte daquela família.

    Aquilo era o Soldado.

    Imóvel.

    Silencioso.

    Os olhos vazios fixos em um ponto qualquer da sala.

    A postura perfeita.

    Militar.

    Artificial.

    Como uma arma esperando instruções.

    Yelena odiava aquilo.

    Odiava mais do que conseguia colocar em palavras.

    Porque conhecia aquele olhar.

    Conhecia aquela ausência.

    Durante anos viu o mesmo reflexo nas Viúvas da Sala Vermelha.

    Viu aquilo no espelho.

    Viveu aquilo.

    Sabia exatamente o que significava estar preso dentro do próprio corpo.

    Ser capaz de ouvir.

    Pensar.

    Sentir.

    Mas não conseguir impedir os próprios movimentos.

    A mandíbula dela travou.

    Com força.

    Porque aquilo nunca deveria ter acontecido novamente.

    Nunca.

    Mas Valentina tinha encontrado uma maneira.

    E agora observava tudo como alguém que acreditava ter vencido.

    Como alguém que acreditava possuir controle.

    Yelena desviou o olhar do Soldado apenas por um segundo.

    O suficiente para encarar a mulher do outro lado da sala.

    A confiança dela era quase irritante.

    Quase.

    Porque Yelena sabia algo que Valentina não sabia.

    Lentamente, sua mão deslizou até o bolso do casaco.

    Sentindo o peso familiar do pequeno caderno.

    Velho.

    Gasto.

    Marcado pelo tempo.

    O caderno que Bucky entregou a ela meses atrás.

    Não por confiança.

    Mas por necessidade.

    Como um plano de contingência.

    Como alguém que conhecia o próprio passado bem demais para ignorar a possibilidade de um futuro ruim.

    Ela lembrava perfeitamente daquele dia.

    Lembrava do olhar sério dele.

    Da ausência de humor.

    Da forma como colocou o caderno em suas mãos.

    Como se estivesse entregando algo perigoso.

    Porque estava.

    Ali dentro estavam os verdadeiros comandos.

    As verdadeiras palavras.

    Não as versões incompletas que circulavam por agências e arquivos secretos.

    As reais.

    As que realmente importavam.

    As que realmente funcionavam.

    Yelena voltou a encarar o Soldado.

    Seu peito apertou.

    Porque sabia que, atrás daqueles olhos vazios, Bucky provavelmente ainda estava ali.

    Preso.

    Assistindo.

    Esperando.

    Talvez até lutando.

    E aquilo tornava tudo pior.

    Muito pior.

    Mas sua expressão permaneceu calma.

    Controlada.

    Porque era exatamente isso que ele faria.

    Exatamente isso que ele esperaria dela.

    Não pânico.

    Não desespero.

    Controle.

    Frieza.

    Precisão.

    A mesma sobrevivente da Sala Vermelha que atravessou o inferno e saiu viva.

    Os dedos apertaram o caderno dentro do bolso.

    E pela primeira vez desde que entrou naquela sala, um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios.

    Não era um sorriso feliz.

    Nem gentil.

    Nem confortável.

    Era o sorriso de alguém que finalmente percebeu que possuía todas as cartas importantes da mesa.

    Porque Valentina acreditava controlar o Soldado Invernal.

    Valentina acreditava ter encontrado uma coleira.

    Uma chave.

    Uma arma.

    Mas Yelena sabia a verdade.

    Sabia que o homem à sua frente confiou nela o suficiente para entregar a única coisa capaz de quebrar aquele controle.

    E enquanto mantinha os olhos fixos no Soldado, forçando a própria respiração a permanecer estável, ela fez uma promessa silenciosa.

    Não importava quantas palavras tivessem usado contra ele.

    Não importava quem estivesse segurando as correntes.

    Não importava quem acreditasse ter vencido.

    Ela tiraria Bucky daquela prisão.

    De novo, se fosse necessário.

    E desta vez, quando tudo terminasse, alguém teria uma conversa extremamente desagradável com Valentina.