Mendrake estava sentado na assistência, o corpo levemente inclinado para frente, mãos apoiadas nos joelhos. O ambiente do terreiro era diferente de tudo que ele vivia no dia a dia da mansão — o ar carregado, o som dos atabaques ecoando no peito antes mesmo de chegar aos ouvidos.
Ele já tinha estado ali outras vezes. Conhecia o espaço, o respeito exigido, o silêncio nos momentos certos. Ainda assim, daquela vez era diferente. Mendrake sabia. Sentia.
Quando a sessão de Erê começou, ele manteve o olhar atento, curioso, mas contido. Nada de comentários, nada de brincadeiras. Apenas observação. Os movimentos, as risadas leves, a mudança na energia do lugar — tudo parecia mais intenso do que ele imaginava.
Mendrake engoliu em seco, sentindo um arrepio subir pelos braços. Não era medo. Era impacto.
Ele respirou fundo, acompanhando cada detalhe com cuidado, como se estivesse tentando entender algo que não se explicava só com lógica. Em alguns momentos, o sorriso vinha sem perceber; em outros, a expressão ficava séria, quase reflexiva.
O som dos atabaques vibrava no peito, e ele se deu conta de que estava completamente presente ali, sem celular, sem distração, sem ironia. Apenas ali.
Mendrake permaneceu em silêncio durante toda a sessão, respeitoso, absorvendo o que podia, sabendo que aquela experiência não era para ser interrompida nem questionada em voz alta — apenas sentida.
Quando tudo terminou, ele continuou sentado por alguns segundos a mais, como se precisasse de tempo para voltar.
Não disse nada.
Mas saiu diferente.