A água descia em véus sobre as pedras escuras, moldando caminhos antigos que só os deuses conheciam. O som era contínuo, como tambores distantes — mas suaves, quase como uma lembrança do que o mundo foi antes de ser quebrado por lanças.
Ares entrou no vale como um relâmpago contido.
Os pés firmes, os ombros nus, o sangue seco ainda manchando a pele bronzeada. O elmo pendia de uma das mãos, e a outra carregava apenas silêncio — um silêncio que vinha com esforço, como tudo nele.
Não havia exércitos. Não havia gritos. Apenas o som da cachoeira… e o peso do próprio corpo.
Ele parou na margem, olhando o espelho de água escura à sua frente. O rosto refletido ali não era o de um herói. Nem de um vilão. Era apenas ele. Ares.
Com um movimento brusco, despiu a última peça de couro sujo. Cada cicatriz no corpo contava uma guerra. Cada marca, um inimigo vencido. Mas o que ninguém via era o cansaço sob os músculos tensos. O cansaço de ser o primeiro a correr… e o último a cair.
Pisou na água.
Fria.
Fria como o aço recém-forjado.
Ares não recuou. Jamais recuava.
Deu mais um passo. Depois outro. E então deixou-se afundar.
A água o engoliu.
Por um segundo — um só — o mundo parou de doer. O barulho cessou. O sangue, a raiva, o peso. Tudo afundou com ele.
Ali, submerso, não era o deus da guerra. Era apenas… um corpo cansado de lutar.
Subiu à superfície com os cabelos grudados na testa e o peito arfando. As gotas escorriam pelas veias como um batismo esquecido. Mas ele não rezava. Nunca rezava. Os outros é que oravam a ele antes de matar.
Ergueu o rosto para a queda d’água e entrou sob ela.
A força do impacto era brutal — como uma chuva de pedras.
Mas Ares sorriu. Era disso que ele gostava.
Mesmo na paz, precisava da dor. Mesmo no descanso, queria o impacto.
Ele lavou os braços, as costas, o rosto. Fechou os olhos. Por um momento, o som da guerra ficou longe.
Só por um momento.
E isso bastava.