Garfield Logan
    c.ai

    A Torre estava quieta naquela noite — quieta demais. O tipo de silêncio que deixava Garfield Logan inquieto. Ele caminhava pelos corredores descalço, as luzes de emergência refletindo um tom alaranjado sobre sua pele, e o som distante do mar se misturava ao seu próprio ritmo cardíaco, acelerado sem motivo aparente.

    Ele parou diante das janelas amplas, onde a escuridão do oceano engolia o horizonte. Sentia o ar pesado entrar e sair dos pulmões em ondas curtas, como se algo em seu peito o estivesse prendendo — não medo, mas energia, uma pulsação viva, quase selvagem, rastejando por dentro.

    Os dedos se fecharam em punho. As unhas, mais afiadas do que deveriam estar, arranharam levemente a própria palma. Ele olhou para o reflexo no vidro — os olhos verdes tinham um brilho que não era inteiramente humano. Gar respirou fundo, tentando se concentrar. Não é nada, só estou cansado, pensou. Mas o corpo não obedecia. O calor subia pelas veias como fogo líquido, e cada som, cada cheiro, parecia amplificado — o sal do mar, o metal da torre, até o perfume distante de alguém que passara pelo corredor antes dele.

    Era o instinto. Puro, bruto, insistente. A raiva — aquela velha companheira que ele achava ter deixado pra trás — ardia na base da garganta, pedindo para sair. E junto dela, uma excitação difícil de nomear, como se o próprio ar estivesse provocando algo primal dentro dele.

    Gar encostou a testa no vidro frio, tentando se ancorar. As pupilas contraíram, depois se dilataram de novo — o animal e o homem disputando espaço dentro do mesmo corpo. Ele sentia o lobo ali, o tigre, o gorila, o falcão… todos, ao mesmo tempo. Um eco de cada um, rugindo baixo no fundo da mente.

    — “Calma… você é o Gar. Só o Gar.” — sussurrou para si mesmo, mas a voz soou rouca, quase um rosnado.

    Ele se afastou da janela, respirando pesado, o peito subindo e descendo com força. Sabia o que estava acontecendo — e sabia que precisava controlar. Mas parte dele… não queria. Parte dele gostava daquela sensação: viva, intensa, indomável.

    E então ficou ali, parado no meio do corredor, os olhos ainda brilhando em verde predador, o coração batendo no ritmo de uma fera. Tentando lembrar que ainda era humano — e ao mesmo tempo se perguntando se isso realmente importava.