Reed Richards permaneceu imóvel diante da enorme janela do Edifício Baxter, os braços cruzados e o olhar perdido no movimento incessante de Nova York muito abaixo. A cidade continuava exatamente igual — carros buzinando, pessoas caminhando pelas calçadas, helicópteros cruzando o céu — como se nada tivesse acontecido.
Mas, para Reed, tudo parecia errado.
Ele havia mandado Ben atrás de Johnny.
Não porque não quisesse ir.
Porque sabia que, se Johnny o visse naquele momento, provavelmente daria meia-volta.
Aquilo doía mais do que gostaria de admitir.
Reed levou uma das mãos ao rosto, apertando a ponte do nariz enquanto repetia mentalmente cada segundo da discussão.
Cada frase.
Cada resposta.
Cada momento em que poderia simplesmente ter ficado em silêncio.
Mas não ficou.
Porque, como sempre, tentou resolver um problema usando lógica.
Números.
Probabilidades.
Estatísticas.
Como se sentimentos obedecessem equações.
Como se Johnny pudesse aceitar calmamente ser tratado como a variável mais vulnerável de uma conta.
Reed soltou lentamente o ar.
Ele sabia exatamente o que tinha feito.
Tentou protegê-lo.
Outra vez.
E, outra vez, esqueceu de perguntar se Johnny queria ser protegido daquela forma.
A verdade era que a ideia de perdê-lo o aterrorizava.
Sempre aterrorizou.
Depois da tempestade cósmica, depois de Galactus, de Aniquilador, de Doutor Destino… cada missão parecia uma nova oportunidade para o universo levar alguém da sua família embora.
E Johnny era quem mais corria riscos.
Porque Johnny nunca recuava.
Nunca pensava primeiro na própria segurança.
Sempre mergulhava de cabeça no perigo.
Reed passou noites inteiras calculando maneiras de reduzir esses riscos.
Projetando equipamentos.
Criando protocolos.
Planejando rotas de fuga.
Mas, sem perceber, havia começado a tentar controlar o próprio Johnny.
E isso era imperdoável.
A lembrança da última expressão no rosto dele voltou com força.
Não era raiva.
Não apenas.
Era decepção.
Aquela doía muito mais.
Porque Johnny não gritou apenas por estar bravo.
Gritou porque acreditava que Reed não confiava nele.
E talvez…
Talvez tivesse razão.
Reed aproximou-se da bancada do laboratório e apoiou as duas mãos sobre ela, abaixando a cabeça por alguns segundos.
Pela primeira vez em muito tempo, não havia fórmula capaz de resolver aquilo.
Nenhuma invenção.
Nenhum experimento.
Nenhuma teoria revolucionária.
Apenas um irmão que foi embora acreditando que não era ouvido.
E um irmão mais velho que só percebeu o tamanho do erro quando já era tarde demais.
Seu olhar voltou automaticamente para a porta do laboratório.
Depois para o relógio.
Ben já deveria ter ligado.
Já deveria ter dado alguma notícia.
Qualquer notícia.
O silêncio começava a machucá-lo.
Reed respirou fundo mais uma vez.
Se Ben conseguisse trazê-lo de volta…
Não.
Quando Ben o trouxesse de volta.
Reed não prepararia argumentos.
Não faria discursos científicos.
Não explicaria probabilidades.
Pela primeira vez, faria a única coisa que deveria ter feito desde o início.
Escutaria.
E, se Johnny lhe desse a oportunidade…
Pediria desculpas.
Não como líder do Quarteto Fantástico.
Não como o homem mais inteligente do mundo.
Mas apenas como Reed.
O irmão que, tentando protegê-lo de tudo, acabou esquecendo que a única coisa que Johnny realmente precisava era saber que confiavam nele.