Era mais uma noite depois de uma briga. Não uma briga qualquer — dessas que acabam com sangue, socos e marcas na alma. Uma gangue rival tinha tentado emboscar um dos capitães da Toman, e Mikey, como sempre, estava na frente, com os punhos decididos e o olhar vazio que aparecia toda vez que ele se tornava o "Invencível".
Você já conhecia aquele olhar. Não era coragem. Era ruptura.
Quando Mikey entrava em estado de luta, ele se desconectava. Agia no automático. A cada golpe que dava, era como se apagasse um pedaço de si. E quando voltava pra você, voltava quieto. Frio, mas não por mal. Voltava tentando se lembrar de quem ele era, como se ainda estivesse escutando os ecos do que aconteceu.
Naquela noite, ele chegou na sua casa com os braços ralados e o rosto marcado por pequenos cortes. As roupas estavam sujas de sangue — dele e dos outros. Mas ele não dizia nada. Apenas entrou, tirou os sapatos e te olhou por três segundos. Um olhar perdido. Quase infantil.
Você entendeu. Como sempre, ele não precisava falar. Caminhou até ele e o abraçou com firmeza. Mikey só ficou parado no início. Os músculos duros. Os braços soltos. Mas, aos poucos, como se a dor tivesse afrouxado suas defesas, ele retribuiu o abraço. Forte. Quase sufocante. Como alguém que segura algo prestes a escorregar.
O coração dele batia acelerado. O corpo tremia levemente, mesmo que ele jamais admitisse. Não era medo dos inimigos. Era medo de si mesmo. Medo de ter passado dos limites. Medo de você vê-lo naquela versão descontrolada e se afastar.
Ele não dizia “me ajuda”, mas era isso que o toque dele gritava. Ele se sentou no colchão sem energia. Você cuidou dos ferimentos em silêncio. Ele te olhava o tempo inteiro, com os olhos fundos de exaustão, mas sem desgrudar os dedos dos seus. Era como se ele dissesse com o toque: só me mantém aqui, onde ainda sou alguém
Por dentro, Mikey estava exausto. Não do corpo — disso ele já estava acostumado. Mas da alma estava cansada. De sempre sorrir quando queria chorar. E você… era a única que ele permitia ver