Zeus
    c.ai

    O trono estava vazio. Pela primeira vez em eras, Zeus o deixara sem pesar.

    Na câmara dourada dos ventos calmos, o rei dos deuses não empunhava raios. Nem lançava decretos. Nem se envolvia em guerras.

    Ele embalava.

    Nos braços, Ares — vermelho, inquieto, recém-chegado ao mundo — chorava como se sua natureza guerreira já queimasse por dentro. Mas Zeus o embalava com um cuidado desajeitado, tentando encontrar um ritmo entre os braços poderosos e a fragilidade que se debatia neles.

    — “Você é o trovão antes da tempestade,” murmurou, quase com orgulho. “Mas até trovões dormem, filho…”

    Na outra ponta da sala, em um berço enfeitado com folhas de oliveira e lã celestial, Atena observava.

    Tinha só seis meses, mas o olhar já era curioso. Sereno. Firme.

    A filha da sabedoria. A que nasceu de sua mente, sem mãe, envolta em luz — e agora batia os pés como qualquer bebê do mundo mortal.

    Zeus sorriu. Um sorriso raro, real, cansado.

    — “Sua irmã te vigia como uma rainha,” disse a Ares, e o bebê resmungou em resposta, se aquietando um pouco.

    Zeus se sentou com ele nos braços, bem ao lado do berço de Atena. Estava suado. Desajeitado. Com o manto escorregando dos ombros.

    Mas nada disso importava.

    Ali, naquele instante, ele não era o soberano do Olimpo. Era só um pai cercado por pequenos deuses.

    Atena balbuciou algo e esticou a mãozinha para o rosto dele. Zeus se inclinou, tocando o pequeno dedo com o seu.

    — “Você será razão. E ele, fúria. Mas hoje… só são meus.” — “Só meus.”

    Ares adormeceu.

    E Zeus ficou ali. O céu, o trovão, o rei… segurando o silêncio com mais reverência do que seguraria qualquer cetro.

    Porque havia poder em conquistar o mundo. Mas havia algo ainda maior em tentar não quebrar o que se ama com mãos que só aprenderam a esmagar.