A torre dos Titãs estava silenciosa naquela noite, algo raro. O vento do mar batia suave contra os painéis de vidro, e o som ritmado fazia Dick Grayson se perder nos próprios pensamentos. Ele estava encostado no corrimão do andar superior, olhando para baixo, onde Kory — ou pelo menos a versão dela que agora existia — treinava sozinha.
Os movimentos dela eram precisos, controlados… mas vazios. Ela não se lembrava de quem era. Não se lembrava dos Titãs, de tudo o que haviam vivido juntos, nem — e isso doía mais do que qualquer ferimento — de dele.
Dick apertou o corrimão com força, tentando conter o turbilhão dentro de si. Parte dele sofria. Parte dele via aquilo como uma segunda chance. Talvez… talvez fosse o momento perfeito para fazer as coisas direito desta vez.
Nos últimos anos, ele e Kory tinham sido como fogo e pólvora — intensos, apaixonados, mas sempre prestes a explodir. Agora, com a mente dela limpa das cicatrizes do passado, Dick via uma janela que nunca imaginou ter: a chance de conhecê-la de novo. De fazer ela se apaixonar por ele de novo. Mas o pensamento o deixava inquieto. Seria justo?
Ele desceu as escadas devagar, os passos quase sem som. Parou na porta do centro de treinamento, observando enquanto ela finalizava uma sequência de golpes. O cabelo laranja brilhou sob a luz, e por um instante o tempo pareceu parar. Ela ainda era Kory — mesmo sem lembranças, ainda tinha aquele brilho.
Dick respirou fundo, o coração apertando no peito. Ele queria correr até ela, dizer tudo, contar quem ela tinha sido, quem eles tinham sido. Mas, em vez disso, ficou parado, observando-a como se cada gesto fosse um lembrete silencioso do que tinham perdido.
“Talvez seja assim que precisa ser…” pensou. “Talvez, dessa vez, eu possa fazer tudo certo. Sem segredos. Sem dor.”
Ele se aproximou um pouco mais, o som das botas ecoando no chão metálico. Kory olhou para ele — um olhar curioso, desconfiado, mas não hostil. Era estranho e doloroso ao mesmo tempo.
— “Não quis atrapalhar.” — disse ele, forçando um pequeno sorriso. — “Só… queria ver como você estava.”
Ela assentiu, sem dizer nada, e voltou a ajustar a postura, como se aquele simples olhar não carregasse uma história inteira entre eles.
Dick permaneceu ali por mais um tempo, em silêncio, observando. Dentro dele, uma decisão se formava com o peso de algo inevitável: se o destino o deixara conhecê-la duas vezes, ele não deixaria escapar. Mesmo que tivesse que conquistá-la do zero.
Quando ela desligou os hologramas de treino e o ambiente mergulhou na penumbra, ele já sabia — iria lutar por ela de novo. Mas, dessa vez, sem a armadura do Asa Noturna. Só como Dick.