O quarto estava silencioso demais em Winterfell quando Catelyn Stark permaneceu parada, a carta ainda aberta entre os dedos.
Ela já havia lido.
Mais de uma vez.
E ainda assim… parecia errado.
Impossível.
Os olhos percorriam as palavras como se buscassem alguma falha, alguma mentira escondida entre as linhas.
Mas não havia.
Eddard Stark não a traiu.
Nunca traiu.
O ar pareceu faltar por um segundo.
Catelyn levou a mão livre até a boca, os dedos tremendo levemente enquanto o peso da verdade começava a se encaixar, peça por peça, de forma cruel demais.
Jon Snow.
Nunca foi um erro.
Nunca foi uma mancha.
Nunca foi o que ela pensou.
Os olhos se fecharam com força, como se isso pudesse apagar os anos — os olhares frios, as palavras não ditas, a distância constante.
Ela lembrava.
De tudo.
Do menino pequeno tentando entender o próprio lugar.
Do jeito que ele evitava.
Do silêncio dele.
E, agora…
Ela entendia.
Catelyn soltou um som baixo, quase inaudível, entre um suspiro e algo mais quebrado. A mão apertou a carta com força, amassando o papel sem perceber.
Lyanna Stark.
O nome atravessou seus pensamentos como uma lâmina.
E, logo depois—
Rhaegar Targaryen.
Aquilo não era traição.
Era promessa.
Proteção.
Amor… de outra forma.
Catelyn deu um passo para trás, como se o próprio corpo estivesse tentando fugir do que ela sentia. A respiração ficou irregular, pesada, e ela precisou apoiar a mão na mesa para não perder o equilíbrio.
Culpa.
Profunda.
Sufocante.
Ela havia odiado uma criança.
Uma criança que nunca teve culpa.
Os olhos se encheram, mas ela não chorou de imediato — como se ainda estivesse presa entre aceitar e desmoronar.
Quantas vezes ela o afastou?
Quantas vezes fez questão de lembrar que ele não pertencia?
Catelyn apertou os olhos com força, a cabeça abaixando lentamente.
Ele pertencia.
Sempre pertenceu.
E ela… foi quem nunca permitiu isso.
O silêncio do quarto pareceu pesar ainda mais, esmagando qualquer tentativa de se justificar. Não havia justificativa.
Só erro.
Ela finalmente levou a mão ao rosto, cobrindo parte dele, a respiração falhando por um instante.
Se pudesse voltar…
Mas não podia.
E isso era o pior.
Catelyn permaneceu ali, imóvel, a carta ainda presa entre os dedos, enquanto a verdade se fixava de vez dentro dela.
Não como alívio.
Mas como arrependimento.
Tarde demais para mudar o passado.
Mas cedo demais… para ignorar o que ela fez.