Peter Parker permaneceu parado diante da pequena janela de seu apartamento, afastando levemente a cortina com dois dedos para observar a rua lá embaixo. Fazia aquilo havia quase dez minutos. Toda vez que um carro desacelerava ou alguém permanecia parado por tempo demais na calçada, seu corpo inteiro enrijecia automaticamente.
A cidade nunca deixava de procurar alguém.
E, naquele momento, esse alguém era Felicia.
Peter soltou lentamente o tecido da cortina, respirando fundo antes de olhar discretamente para o restante do apartamento. Era pequeno. Simples. Mal tinha espaço para duas pessoas. O sofá era velho, a mesa da cozinha servia também como escrivaninha, e algumas caixas ainda permaneciam fechadas porque ele sequer possuía móveis suficientes para guardar tudo.
Mesmo assim…
Era o único lugar que podia oferecer.
E ofereceria quantas vezes fosse necessário.
Seu olhar percorreu o ambiente procurando qualquer detalhe que pudesse denunciá-la caso alguém resolvesse entrar ali de surpresa. Algumas compras extras na cozinha. Um casaco que não era dele dobrado sobre uma cadeira. Pequenas coisas que normalmente passariam despercebidas, mas Peter já aprendera que paranoia era uma consequência inevitável de viver duas vidas.
Passou a mão pelos cabelos, claramente inquieto.
Não gostava daquela situação.
Felicia sempre dava um jeito de parecer tranquila, quase divertida, mesmo quando estava sendo caçada. Sorria como se aquilo fosse apenas mais um desafio.
Peter, por outro lado, não conseguia enxergar daquela forma.
Sabia do que as pessoas eram capazes quando decidiam transformar alguém em alvo.
Sabia como era viver fugindo.
Sabia como era acordar todos os dias sem ter certeza de que conseguiria voltar para casa.
Talvez por isso estivesse tão preocupado.
Talvez enxergasse nela mais do que gostaria de admitir.
A máscara do Homem-Aranha permanecia dobrada sobre a bancada da cozinha, pronta para ser usada a qualquer instante. Peter olhou para ela por alguns segundos.
Se alguém encontrasse Felicia…
Ele sairia imediatamente.
Não importava quem estivesse atrás dela.
Não importava quantos fossem.
Não permitiria que levassem alguém que estava sob seu teto.
Apoiou as duas mãos na pia e abaixou a cabeça por um instante.
Seu apartamento nunca pareceu tão pequeno.
Mas, curiosamente, também nunca pareceu tão cheio de propósito.
Porque, pela primeira vez desde que passou a morar sozinho, aquele lugar deixara de ser apenas o espaço onde dormia depois das patrulhas.
Tinha se tornado um refúgio.
E Peter faria tudo o que estivesse ao seu alcance para que continuasse sendo um lugar seguro para Felicia, mesmo que isso significasse colocar mais uma vez a própria vida entre ela e qualquer pessoa que tentasse levá-la embora.