Tormund
    c.ai

    Tormund Giantsbane estava começando a ficar irritado.

    Não com o frio.

    Não com os lordes do Norte.

    Nem com os corvos que insistiam em aparecer nas muralhas.

    Com Jon.

    Porque alguma coisa estava errada com seu pequeno corvo.

    Muito errada.

    Tormund percebeu isso logo depois da Batalha dos Bastardos. No início pensou que fosse apenas cansaço. Afinal, Jon havia morrido, voltado à vida, reunido exércitos, enfrentado Ramsay Bolton e retomado Winterfell. Qualquer homem estaria exausto depois disso.

    Mas os dias passaram.

    Depois semanas.

    E Jon não melhorou.

    Na verdade, parecia pior.

    O selvagem observava aquilo em silêncio sempre que podia. Via Jon atravessar os corredores do castelo sem realmente enxergar as pessoas ao redor. Via os lordes falarem com ele e receberem respostas automáticas. Via os elogios pelo feito em Winterfell escorrerem pelos ombros dele como água.

    Como se nada importasse.

    Como se vencer não tivesse significado coisa alguma.

    Tormund estava sentado próximo às muralhas naquela manhã quando avistou Jon caminhando pelo pátio abaixo. Os homens do Norte o cumprimentavam. Alguns erguiam canecas em sua direção. Outros o chamavam de Rei do Norte.

    Jon respondia.

    Mas não sorria.

    Não de verdade.

    Era apenas educação.

    Aqueles olhos continuavam vazios.

    Pesados.

    Distantes.

    O selvagem franziu o cenho enquanto observava.

    Conhecia guerreiros.

    Conhecia homens quebrados.

    Conhecia homens que carregavam fantasmas.

    Jon estava começando a parecer todos eles ao mesmo tempo.

    Porque sempre que ninguém olhava, o rosto dele mudava.

    A postura caía.

    Os ombros pesavam.

    A expressão endurecia.

    Era como se estivesse carregando uma guerra inteira dentro da cabeça.

    Uma guerra que ninguém mais conseguia ver.

    Tormund passou a mão pela barba ruiva e continuou observando.

    Jon não dormia direito.

    Ele sabia disso.

    Já tinha visto luzes acesas tarde da noite.

    Já o encontrara sozinho nas muralhas quando todos estavam dormindo.

    Já o vira encarando o horizonte por horas, completamente imóvel, como se procurasse respostas em meio à neve.

    E aquilo preocupava o selvagem mais do que gostaria de admitir.

    Porque Jon nunca fora bom em dividir o peso que carregava.

    Nunca.

    Desde que o conheceu além da Muralha, o garoto tinha essa mania irritante de assumir problemas que pertenciam a outras pessoas.

    Tomava responsabilidades para si.

    Culpas para si.

    Fracassos para si.

    Como se acreditasse que precisava proteger todo mundo.

    Mesmo quando ninguém pedia isso.

    Mesmo quando aquilo o destruía.

    Os olhos de Tormund encontraram Jon novamente no topo das muralhas algumas horas depois.

    Sozinho.

    Outra vez.

    Sempre sozinho.

    O vento puxava a capa negra enquanto ele observava as terras do Norte.

    Parecia um homem cercado por milhares de pessoas e, ainda assim, completamente isolado.

    Tormund sentiu um aperto estranho no peito.

    Porque começava a entender o que estava acontecendo.

    Jon lutava contra alguma coisa.

    Não um inimigo.

    Não um exército.

    Não um rei.

    Algo dentro dele.

    Algo que tentava esconder.

    Algo que parecia crescer a cada dia.

    O selvagem já tinha visto aquele olhar antes em homens apaixonados que acreditavam não poder amar.

    Em guerreiros que sobreviviam quando amigos melhores morriam.

    Em líderes que carregavam responsabilidades maiores do que podiam suportar.

    Era o olhar de alguém tentando sufocar os próprios sentimentos até eles o consumirem.

    E Jon estava perdendo essa batalha.

    Pouco a pouco.

    Dia após dia.

    Tormund observou o jovem Stark apoiar ambas as mãos sobre a pedra gelada da muralha e abaixar ligeiramente a cabeça.

    Por apenas um segundo.

    Um único segundo.

    Mas foi o bastante.

    Porque naquele instante Jon pareceu cansado.

    Não fisicamente.

    Cansado da alma.

    Como alguém que estava usando as últimas forças para continuar de pé.

    O selvagem soltou lentamente o ar pelo nariz.

    Seu pequeno corvo estava perto do limite.

    Talvez nem ele percebesse isso ainda.

    Mas Tormund percebia.

    Via em cada silêncio.

    Em cada olhar distante.

    Em cada sorriso forçado.

    Em cada noite passada acordado.

    E o que mais o preocupa