A campainha tocou três vezes.
Zeus — ou como preferia ser chamado ali, Elias — ajeitou a gola da camisa social e abriu a porta com um sorriso ensaiado. O entregador recuou meio passo, confuso. Não sabia dizer o porquê, mas aquele homem de cabelo grisalho impecável, olhos intensos e postura firme parecia… demais. Alto demais. Calmo demais. Como se cada gesto estivesse calculado para não brilhar tanto.
— “Boa tarde, senhor Elias,” — disse o garoto, gaguejando um pouco. — “Seu pedido… seis caixas de água com gás, três de vinho, uma estante nova e… um para-raios?”
Zeus sorriu, pegando o papel.
— “Precaução.” — respondeu. — “Nunca se sabe quando uma tempestade resolve aparecer.”
Assinou com uma caneta antiga, de bronze reluzente, e fechou a porta com delicadeza. A casa era simples. Móveis de madeira escura, livros de mitologia na estante (com anotações feitas à mão), uma lareira apagada e, no centro da sala, um trono disfarçado de poltrona — ninguém jamais notava, mas havia algo… imperial ali.
O som da chaleira apitando cortou o ar. Ele foi até a cozinha, serviu o chá com uma precisão cerimonial e se sentou, observando o mundo lá fora pela janela. A cidade funcionava em ritmo acelerado, cheia de barulhos, buzinas, humanos correndo atrás de coisas pequenas como se fossem grandes.
Ele gostava daquilo. Do caos domesticado.
Mas às vezes era difícil fingir.
Na cafeteria, as pessoas sempre paravam de falar quando ele entrava. No mercado, os cães o seguiam em silêncio. Uma criança o chamou de “rei” sem saber por quê. E, naquela manhã, o céu tinha se aberto para ele — literalmente — em meio a uma previsão de chuva.
“Disfarce, Zeus,” murmurava para si mesmo. “Disfarce.”
Pegou o jornal. Economia em crise. Nova guerra em ascensão. Um culto estranho adorando a “deusa do algoritmo”. Ele suspirou.
— “Nada muda, não é?”
O trovão retumbou ao longe, mesmo sem nuvem alguma no céu. Ele ergueu a sobrancelha.
— “Eu disse disfarce, não drama.”
Terminou o chá. Levantou-se com calma. O sol atravessou a janela e pareceu se curvar um pouco ao tocar seu ombro.
Lá fora, a cidade seguia ignorando quem caminhava entre eles.
Um homem comum, de camisa branca dobrada até os cotovelos, barba bem feita, olhar antigo.
Um pai dos céus… vivendo como vizinho.
E sorrindo, discretamente, enquanto o mundo esquecia — por escolha ou por instinto — que a tempestade, às vezes, usa sapatos italianos e paga as contas em dia.