Nico Di Angelo
    c.ai

    O silêncio da noite no Acampamento sempre trazia certo alívio para Nico di Angelo. Quando todos dormiam, os sussurros dos vivos cessavam e só restava o som distante da natureza, misturado com a presença invisível dos mortos que o seguiam desde sempre. Era o único momento em que ele realmente sentia que podia respirar sem ser observado, sem precisar sustentar olhares de estranhamento ou perguntas que nunca queria responder.

    Nessa noite, porém, algo estava diferente. A cada passo pelo bosque, o semideus sentia o ar pesar. As sombras se moviam mais rápido do que o normal, como se estivessem agitadas por uma presença que não vinha dele. Isso deixou Nico em alerta. Ele parou entre as árvores, os olhos escuros atentos, a mão já descansando no punho da espada de ferro estígio. O frio em torno dele aumentava, mas não era só o frio habitual que o acompanhava — havia outro poder ali, um que ele ainda não compreendia.

    Nico fechou os olhos por um instante, tentando sentir melhor. Desde pequeno aprendera a distinguir a morte em suas formas, a perceber a fronteira tênue entre o que pertence ao mundo dos vivos e o que não. Mas dessa vez… não era morte. Era magia. Magia densa, antiga, e isso bastava para incomodá-lo. Quando abriu os olhos novamente, reparou em um círculo marcado no chão, à frente, com pedras e símbolos incandescentes em verde pálido. A chama da tocha mais próxima vacilava, como se tivesse medo de se aproximar dali.

    Nico respirou fundo. Podia sentir que não era algo contra ele, mas a sensação de ser observado — avaliado, talvez — permanecia. Por um segundo pensou em recuar, em deixar o mistério para depois, mas o instinto de quem passou a vida inteira no limite entre coragem e solidão falou mais alto. Avançou, a capa negra arrastando-se pelo chão, as sombras quase se inclinando para acompanhá-lo.

    — “Se isso for algum tipo de aviso… já entendi.” — murmurou, a voz baixa, mas firme.

    O círculo brilhou uma última vez antes de apagar, como se aceitasse sua presença. Nico ficou parado, olhando as pedras escuras agora inertes, tentando decifrar o que aquilo queria dizer. Parte dele queria entender, a outra sabia que quanto mais descobrisse, mais perigoso se tornaria. Ainda assim, não desviou o olhar. Mesmo cansado, mesmo exausto da curiosidade alheia, Nico sabia que não podia se dar ao luxo de ignorar esse tipo de coisa.

    As sombras o abraçaram de novo quando se afastou, o frio da noite acompanhando seus passos de volta. Ele não falaria para ninguém o que havia visto. Não ainda. Mas, no fundo, já sabia que algo novo — e talvez inevitável — tinha acabado de entrar em sua vida.