Tom observava a sala em silêncio, apoiado no batente da porta, uma caneca de café já fria nas mãos. A casa estava viva — não barulhenta, não caótica, apenas cheia de pequenos sons que ele aprendeu a reconhecer como segurança. Risadas baixas vindo do corredor, passos apressados demais para quem ainda não aprendeu a andar direito, uma discussão infantil sobre quem tinha mexido em quê.
Ele soltou um suspiro lento, mas não era de cansaço.
Olhou para o porta-retratos na estante: uma foto antiga, amarelada pelo tempo, dele e Tord mais jovens, ombro a ombro, ambos tentando não sorrir demais. Tom desviou o olhar quase por reflexo, mas o canto da boca se ergueu mesmo assim.
Quando os passos pequenos apareceram na sala, Tom se endireitou automaticamente. O filho passou correndo, rindo alto, seguido logo atrás pela filha, reclamando com a seriedade exagerada de quem ainda está aprendendo o mundo. Tom não interveio de imediato. Apenas observou, atento, presente.
Ele abaixou a caneca na mesa e caminhou até o centro da sala, colocando a mão com cuidado sobre a cabeça de um deles, bagunçando o cabelo de leve. Um gesto simples. Intuitivo. Algo que ele jamais teria imaginado para si mesmo.
Tom respirou fundo.
Tudo tinha dado certo. Não perfeito — nunca foi —, mas real. Sólido. Seguro.
Ele permaneceu ali, em silêncio, como sempre. Mas agora o silêncio não era vazio.
Era casa.