O vento marítimo bagunçava os cachos de Hazel enquanto ela permanecia imóvel na proa do navio. O Argo II se erguia diante dela em toda a sua estranheza — uma embarcação feita de bronze celestial, coberta de engrenagens, tubos e armas que pareciam mais vivas do que qualquer coisa que já vira em sua vida. Cada batida das hélices era como um coração metálico pulsando. Hazel sentia que deveria ter medo… mas, ao contrário, estava maravilhada.
— “É… lindo…” — murmurou baixinho, como se confessasse um segredo apenas para o mar.
Seu olhar, no entanto, foi atraído para a figura que corria de um lado para o outro no convés, mexendo em ferramentas, apertando parafusos, sorrindo como se estivesse em casa. O garoto de cabelos escuros, olhos vivos e mãos manchadas de graxa. Leo.
Hazel sentiu o coração apertar. Ele se parecia tanto… tanto com Sammy. O mesmo sorriso travesso, o mesmo jeito de falar rápido, o mesmo brilho de vida que a prendia sem querer. Por um instante, a ilusão quase a quebrou. Quase acreditou que o tempo tinha voltado, que estava em Nova Orleans novamente, que Sammy estava vivo. Mas não.
Ela fechou os olhos com força, tentando dissipar o peso que a memória trazia. Quando abriu, lá estava Leo outra vez, jogando uma chave inglesa para cima como se fosse um truque de circo, completamente alheio ao nó em seu peito.
— “Ele não é o Sammy.” — lembrou a si mesma em voz baixa, quase um sussurro. — “Ele não pode ser.”
Mesmo assim, a dor e a confusão se misturavam com o fascínio. Hazel se forçou a olhar de novo para o navio, para o Argo II, como se a grandiosidade da criação pudesse distraí-la. Mas não adiantava. Cada detalhe do navio a lembrava que aquele garoto o havia construído — e que, por mais que ela quisesse negar, ele carregava a sombra de alguém que nunca mais poderia voltar.