Ben Grimm bateu a porta do Edifício Baxter com força um pouco maior do que pretendia, o casaco de couro jogado sobre um dos ombros enquanto descia os degraus da entrada. Seus passos pesados ecoavam pela calçada, e, pela primeira vez em muito tempo, ele não fazia ideia de onde Johnny poderia ter ido.
Isso era o que mais o incomodava.
Johnny sempre saía para esfriar a cabeça.
Sempre.
Mas nunca daquele jeito.
Nunca depois de uma discussão daquelas.
Ben conhecia Reed havia tempo suficiente para saber que, quando o cientista acreditava estar protegendo alguém, tinha o péssimo hábito de esquecer que pessoas não eram experimentos matemáticos. E conhecia Johnny tempo suficiente para saber que o garoto preferia fugir a continuar ouvindo alguém tentar decidir sua vida por ele.
Era a combinação perfeita para um desastre.
Ben soltou um longo suspiro enquanto caminhava pelas ruas de Manhattan, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.
— Cabeça dura…
Murmurou, sem saber ao certo de qual dos dois estava falando.
Porque ambos eram.
Reed tentava controlar tudo.
Johnny odiava ser controlado.
Era inevitável.
Mas aquilo tinha ido longe demais.
Muito longe.
Ben ainda conseguia ouvir a voz dos dois ecoando pelos corredores do Baxter. Reed insistindo que estava tentando protegê-lo. Johnny respondendo que estava cansado de ser tratado como um garoto que precisava de autorização para viver.
E então…
Silêncio.
A porta batendo.
Johnny indo embora sem sequer olhar para trás.
Aquilo não parecia certo.
Johnny podia ser impulsivo, barulhento e insuportavelmente dramático às vezes, mas nunca deixava a família daquele jeito.
Nunca.
Ben conhecia o garoto desde adolescente.
Viu Johnny crescer.
Viu suas piadas piorarem.
Viu sua confiança aumentar.
Viu todas as vezes em que escondia inseguranças atrás de um sorriso convencido.
Por isso sabia reconhecer quando aquele sorriso desaparecia.
E, naquela discussão…
Ele desapareceu.
Os olhos de Ben percorreram as ruas movimentadas enquanto continuava andando. Pensava nos lugares onde Johnny costumava ir quando precisava ficar sozinho. Algum telhado alto. Um restaurante qualquer. Uma praia, se realmente quisesse distância. Talvez até algum canto esquecido da cidade onde pudesse simplesmente voar sem pensar em mais nada.
Ben esperava estar errado.
Esperava encontrar Johnny sentado em algum lugar reclamando da vida e fazendo piadas.
Preferia mil vezes ouvir uma provocação idiota do que aquele silêncio.
Parou por um instante em uma esquina, observando o céu entre os prédios.
Nenhum rastro de fogo.
Nenhum clarão.
Nada.
Seu maxilar se contraiu.
Porque, por mais que Johnny fosse adulto, por mais que soubesse se virar sozinho…
Ainda era o garoto da família.
Ainda era o pirralho que ele sempre acabava protegendo.
Ben voltou a caminhar, agora com passos ainda mais decididos.
Não importava quanto tempo levasse.
Não importava quantos lugares precisasse procurar.
Ele encontraria Johnny Storm.
E, quando o encontrasse, a primeira coisa que faria seria garantir que ele estava bem.
A segunda…
Bom.
A segunda seria dar um jeito de fazer Reed Richards criar vergonha na cara e ir buscar o próprio irmão antes que aquela distância entre os dois se tornasse grande demais para qualquer um atravessar.