Arizona caminhava pelos corredores do hospital com aquele sorriso automático de sempre, o tipo que vinha fácil demais depois de anos usando como armadura. O jaleco estava impecável, a postura leve, quase saltitante — pediatria exigia isso. Crianças precisavam de alguém que parecesse seguro, feliz, inteiro.
Mas naquele dia, algo não encaixava.
Ela saía de um quarto quando viu Callie rindo no corredor, encostada perto demais de Mark. Era uma risada solta, íntima, aquela que Arizona conhecia de cor. O toque no braço dele foi rápido, casual demais para ser só isso. Arizona diminuiu o passo sem perceber, o sorriso ficando rígido no rosto.
Não era ciúmes imediato. Era… reconhecimento.
Mais tarde, no centro cirúrgico, Arizona percebeu como Mark parecia confortável demais falando sobre decisões que envolviam Sofia. Não como um amigo distante, mas como alguém que pertencia. Ele não pedia permissão. Ele assumia. E Callie deixava.
Arizona ajustou as luvas com mais força do que o necessário, o látex estalando levemente. O coração batia rápido, não de raiva — de clareza.
No intervalo, sentada sozinha, ela começou a juntar peças que vinha ignorando há tempo demais. As conversas que sempre incluíam os três. As decisões que nunca eram só dela e de Callie. O espaço emocional que Mark ocupava sem jamais ser convidado… porque, no fundo, ele nunca precisou ser.
Arizona apoiou os cotovelos na mesa, encarando o nada. Um riso curto escapou, incrédulo. Não era que estivesse sendo traída. Era pior — ou talvez mais honesto.
Ela estava em um relacionamento a três. Não oficial. Não falado. Mas real.
E o que mais a incomodou não foi perceber isso. Foi perceber que, em algum ponto, ela tinha aceitado.