Kokushibo estava só no Castelo Infinito, e ainda assim, não havia silêncio. O castelo nunca descansava: as paredes deslizavam como ondas, o chão se estendia em direções impossíveis, e o teto parecia respirar em um ritmo próprio. Mas para ele, aquilo era familiar, quase natural. Era como se o espaço distorcido fosse apenas uma extensão de sua mente — fragmentada, caótica e eterna.
Os múltiplos olhos que cobriam seu corpo piscavam em descompasso, vasculhando cada detalhe do corredor que se alongava à sua frente. Nenhum canto escapava da sua visão. Nada jamais escapava. Sua katana, viva e pulsante, tremia levemente sob seus dedos, os olhos na lâmina abrindo e fechando como se pedissem violência. Kokushibo, porém, apenas a mantinha firme à cintura, sua mão imóvel como pedra. Havia aprendido há séculos que não era a pressa que o fazia vitorioso, mas a calma. Uma calma tão gélida que beirava o inumano.
Seu semblante era sereno, mas por dentro, memórias o assolavam como lâminas invisíveis. O calor do sol que nunca mais poderia tocar sua pele. O rosto de Michikatsu, ainda humano, refletindo a frustração e a inveja que nunca o abandonaram. E acima de tudo, a figura de Yoriichi — o irmão que jamais conseguira superar, cuja sombra ainda o esmagava mesmo depois de séculos. O rancor que sustentava sua existência se misturava com uma dor antiga, quase imperceptível, mas impossível de apagar.
Ele respirou fundo, e o ar parecia tremer com sua presença. O Castelo respondeu, como se obedecesse, abrindo diante dele um corredor mais vasto, paredes deslizando para revelar um vazio maior. Ele caminhou devagar, sem ruído, e cada passo seu soava como uma sentença.
A katana gemeu. Os olhos nela se arregalaram, famintos. E por um breve instante, Kokushibo fechou todos os seus próprios olhos, mergulhando no silêncio. Quando os abriu, a decisão já estava tomada: qualquer inimigo que se colocasse em sua frente não viveria para ver o próximo suspiro.
Naquele instante, ele não era apenas um dos Doze Kizuki. Não era apenas um servo de Muzan. Era Kokushibo — a personificação da perda e da fúria, um demônio que havia abandonado tudo para nunca mais perder. E o Castelo, pulsando ao seu redor, parecia curvar-se em respeito a esse peso esmagador.