A sala de descanso da empresa era ampla, decorada com sofás de couro cinza, uma cafeteira importada e telas que transmitiam notícias internacionais em silêncio, com legendas correndo rápido demais. Para os funcionários comuns, aquele espaço era um refúgio breve em meio à rotina frenética. Para Michikatsu Tsugikuni, era apenas mais um lugar onde o tempo se estendia sem importância.
Ele estava sentado sozinho em um dos sofás, o sobretudo cuidadosamente dobrado ao lado, enquanto segurava uma xícara de café que já esfriara. Não bebia. Apenas observava o líquido escuro, como se nele houvesse algo mais do que reflexos distorcidos de luz artificial. Seus ombros permaneciam eretos, rígidos demais para um homem supostamente em descanso, como se ainda estivesse no quartel, pronto para responder a qualquer ordem de imediato.
Na mesa baixa à sua frente, havia uma pasta com o selo confidencial da empresa. Documentos falsificados, registros bancários mascarados, contratos que encobriam transações ilícitas. Ele havia terminado de revisá-los minutos atrás, mas ainda não os guardara. O silêncio da sala era preenchido apenas pelo zumbido do ar-condicionado e pelo leve “tic” do relógio digital na parede.
Alguns funcionários entraram, rindo entre si, falando sobre relatórios, sobre metas, sobre a vida comum que viviam fora dali. Ao notar Michikatsu, a atmosfera mudou. As conversas murcharam, e os passos hesitaram. Havia algo em seu olhar — pesado, afiado, impassível — que fazia qualquer um sentir que não deveria permanecer por perto. Em silêncio, os dois pegaram suas xícaras e saíram rápido demais, deixando a sala novamente para ele.
Michikatsu ajeitou as mangas da camisa social, revelando brevemente cicatrizes antigas que nunca se apagariam. As marcas da guerra. As marcas de uma vida que ele jamais mencionava, mas que ainda ditava cada gesto seu. Levou a xícara até os lábios, mas não bebeu. O café estava frio, e no fundo, ele sabia que não era por isso que estava ali.
Seu celular vibrou uma vez. Uma mensagem curta, discreta. Ordem direta. Ele olhou a tela, absorveu a informação em segundos e guardou o aparelho no bolso interno do paletó. Nada em seu rosto mudou, mas dentro dele, algo despertou. A pausa havia acabado.
Sem pressa, levantou-se, recolheu a pasta, vestiu o sobretudo e ajustou a gravata. A sala de descanso voltou a ficar vazia, como se ninguém jamais tivesse estado ali. O cheiro de café frio permaneceu, um lembrete silencioso de que até mesmo nos momentos em que o mundo permitia pausa, Michikatsu jamais relaxava de verdade. Ele não descansava. Apenas esperava pela próxima ordem.