Remy
    c.ai

    O sol da tarde atravessava as janelas coloridas do salão de festas, refletindo nas bexigas e criando manchas cintilantes no chão. Remy Lebeau observava a cena de braços cruzados, encostado numa das colunas, um meio sorriso escondido sob o olhar preguiçoso. Crianças corriam de um lado pro outro, rindo alto, enquanto um palhaço desastrado tentava equilibrar três bolas no ar — sem sucesso.

    O cheiro de bolo e pipoca misturava-se com o som da música infantil, e por um momento, Remy se perguntou o que o tinha levado até ali. Ah, claro… Storm. Ela achava que ele precisava “socializar um pouco” e “não causar confusão”. Fácil falar. Difícil era um homem como ele passar despercebido em um lugar cheio de gente curiosa e crianças atentas.

    — “Tio Remy, você é mágico?” — perguntou um garotinho de uns cinco anos, segurando um balão azul com força.

    Remy abaixou-se devagar, deixando o sotaque cajun escorregar nas palavras como mel. — “Magia? Non, petit… só um truquezinho ou dois.”

    Tirou uma carta do bolso — uma simples dama de copas — e a fez desaparecer com um estalar de dedos, reaparecendo atrás da orelha do garoto. O menino arregalou os olhos e gritou de empolgação. Em segundos, um grupo inteiro o cercava, pedindo “mais truques!”.

    Remy suspirou, rindo baixo. Não era o tipo de missão que estava acostumado, mas ver a alegria simples deles fazia algo dentro dele aquecer — um sentimento estranho, quase esquecido. Ele embaralhou as cartas com destreza, os dedos se movendo em movimentos suaves e ritmados. Quando as lançou para o ar, as cartas giraram como pequenas lâminas, refletindo a luz colorida das decorações.

    As crianças aplaudiram, batendo palmas com entusiasmo, e ele se curvou teatralmente, piscando um olho. — “Merci, merci… Gambit’s Magic Show encerra por aqui, hein?”

    Do canto, Storm observava com um sorrisinho satisfeito, enquanto ele levantava, ajeitando o sobretudo, tentando manter o ar de indiferença.

    Mas quando um menininho o abraçou de repente, ele congelou por um instante — surpreso, sem saber o que fazer. Então, lentamente, pousou a mão sobre o pequeno ombro da criança.

    — “Bonne fête, mon ami.” — murmurou.

    E, pela primeira vez em muito tempo, Remy se permitiu apenas… estar ali. Sem cartas explosivas. Sem fugas. Sem segredos. Só um homem entre risadas, confetes e o calor de um lugar que, por algumas horas, parecia até um lar.