Remy LeBeau atravessava os corredores da Mansão X com as mãos afundadas nos bolsos do sobretudo, um baralho deslizando habilmente entre seus dedos sem que precisasse sequer olhar para ele. As cartas desapareciam e reapareciam com a mesma naturalidade com que respirava, acompanhando o leve sorriso de canto que raramente abandonava seu rosto.
Alguns alunos passaram correndo por ele, apressados para o treinamento da tarde. Remy apenas inclinou a cabeça em cumprimento, sem interromper o truque que fazia com as cartas. Um dos mais novos tentou acompanhar seus movimentos com os olhos, mas desistiu poucos segundos depois, arrancando uma risada baixa do cajun.
— Precisa treinar mais os reflexos, mon ami…
Comentou em tom divertido, fazendo a carta surgir atrás da orelha do garoto antes de seguir andando.
Continuou pelo corredor em ritmo tranquilo, como se nunca tivesse qualquer urgência na vida. Gostava daquela sensação de normalidade. Depois de tantos anos vivendo entre roubos, perseguições e missões perigosas, caminhar livremente por uma escola cheia de jovens mutantes parecia um privilégio que jamais imaginou ter.
Parou diante de uma das grandes janelas da mansão, observando o campo de treinamento onde alguns alunos praticavam controle dos próprios poderes. Seu olhar permaneceu ali por alguns instantes, atento aos pequenos erros, aos acertos e, principalmente, à confiança que começava a surgir em cada um deles.
Remy sorriu discretamente.
Aquela era, talvez, a parte mais curiosa de sua vida.
Nunca se imaginara dando aulas.
Muito menos servindo de exemplo para alguém.
Ainda assim, os alunos pareciam enxergar nele algo que ele próprio demorava a reconhecer: alguém que havia cometido inúmeros erros, sobrevivido a eles e aprendido o suficiente para ensinar outros a não fazerem o mesmo.
Com um movimento rápido do pulso, a última carta do baralho girou entre seus dedos. Por um breve instante, ela brilhou com um leve tom rosado, carregada por sua energia cinética.
Remy observou o pequeno clarão, abriu um sorriso malicioso e cancelou a carga antes que a carta pudesse explodir.
— Melhor não…
Murmurou para si mesmo.
— Charles ia reclamar outra vez.
Guardou o baralho no bolso do casaco e voltou a caminhar pelos corredores assobiando baixinho, completamente à vontade naquele lugar que, contra todas as probabilidades, deixara de ser apenas um esconderijo.
A Mansão X havia se tornado sua casa.
E Remy LeBeau ainda achava isso um golpe de sorte melhor do que qualquer um que já aplicara.