O hospital tinha voltado a respirar.
Os corredores estavam novamente cheios, os monitores apitavam no ritmo conhecido, enfermeiros reclamavam do café fraco e cirurgias voltavam a ocupar as salas como se o caos nunca tivesse passado por ali. Para quase todo mundo, a vida seguia. Para Mark, ela apenas fingia normalidade.
Ele se movia com facilidade pelo hospital, sorria quando precisava, flertava por reflexo, fazia seu trabalho com a precisão de sempre. Por fora, estava inteiro. Por dentro, contava tudo em função dela.
Lexie.
Mark passou a reparar em coisas pequenas demais para qualquer outra pessoa notar. O jeito como ela chegava cedo demais, como se dormir fosse perda de tempo. As olheiras que ela tentava esconder. O café sempre cheio, nunca tocado depois da terceira hora da manhã. As mãos trêmulas quando o hospital ficava silencioso demais.
À noite era pior.
Mark acordava com qualquer movimento ao lado dele. Qualquer respiração irregular. Às vezes nem precisava acordar — ficava imóvel, ouvindo. Esperando. Sabendo exatamente o momento em que o corpo dela ficava rígido, como se o perigo ainda estivesse ali, escondido no escuro.
Ele não perguntava sempre. Não pressionava. Só se aproximava.
Um braço firme em volta dela. Uma mão nas costas. Respiração lenta, proposital, como se pudesse ensinar o corpo dela a lembrar que estava segura. Que estava viva. Que ele estava ali.
Mark, que sempre teve respostas rápidas e confiança demais, se via impotente nas madrugadas silenciosas. O tiroteio tinha acabado, mas tinha deixado marcas que não apareciam em exames. E isso o aterrorizava mais do que qualquer ferida aberta.
Durante o dia, ele fingia leveza. À noite, virava vigia.
Ele observava o teto, contava respirações, prometia em silêncio que nada — absolutamente nada — ia tocar nela de novo. Mesmo sabendo que não podia controlar o mundo, Mark se agarrava à única coisa que podia fazer: ficar.
Porque se o hospital tinha aprendido a funcionar outra vez, Lexie ainda estava aprendendo a sobreviver ao depois. E Mark não ia a lugar nenhum enquanto ela não conseguisse dormir em paz.