Sam Wilson estava afundado no sofá da sala da terapeuta, um dos braços apoiado no encosto enquanto observava distraidamente o teto. O consultório estava silencioso naquele momento, mas sua cabeça estava longe de estar.
A conversa que tivera com a terapeuta continuava se repetindo.
“Vocês não podem simplesmente prender o Soldado Invernal no consciente do Bucky.”
“Ele existe.”
“Ele faz parte da mente dele.”
“Vocês vão ter que ensiná-lo a ser outra coisa.”
Sam soltou um suspiro longo.
Aquilo seria muito mais difícil do que enfrentar qualquer supervilão.
Porque supervilões eram simples.
Eles queriam destruir alguma coisa.
Você impedia.
Fim.
Mas aquilo?
Aquilo era uma pessoa.
Ou quase uma.
Ou talvez uma parte de uma pessoa.
Honestamente, Sam não tinha certeza de qual definição usar mais.
Seu olhar caiu para o bloco de anotações que segurava.
Havia algumas palavras escritas.
“Objetivos.”
“Escolhas.”
“Conversa.”
“Autonomia.”
Todas riscadas.
Todas parecendo inúteis.
Porque o problema era simples.
O Soldado Invernal não sabia existir.
Durante décadas alguém dizia o que fazer.
Para onde andar.
Quem matar.
Quando dormir.
Quando acordar.
Quando respirar.
Ele nunca precisou escolher nada.
Então como exatamente você ensinava alguém assim?
Sam passou a mão pelo rosto.
Pensativo.
Porque aquela era a segunda vez que tentava aquilo.
A segunda vez que sentava numa sala tentando descobrir uma forma de conversar com o Soldado sem tratá-lo como um monstro.
E sem tratá-lo como Bucky.
Porque a terapeuta também tinha deixado isso claro.
Não adiantava fingir que eram a mesma pessoa naquele momento.
O Soldado respondia diferente.
Pensava diferente.
Reagia diferente.
E toda vez que Sam tentava falar com ele como falava com Bucky, a conversa simplesmente morria.
Os dedos bateram lentamente contra o caderno.
Então uma memória surgiu.
Uma das primeiras vezes que conheceu Bucky.
Não o amigo.
O Soldado.
Ele lembrava da expressão desconfiada.
Da forma como observava tudo.
Como alguém esperando ordens.
Ou esperando uma ameaça.
Talvez aí estivesse o problema.
Todo mundo continuava tentando arrancar respostas dele.
Exigir respostas.
Mas ninguém perguntava o que ele queria.
Porque todos assumiam que a resposta seria nada.
Sam endireitou-se um pouco no sofá.
Pensando.
Pensando muito.
O Soldado não precisava aprender a ser bom.
Não precisava aprender a ser Bucky.
Primeiro precisava aprender algo muito mais básico.
Precisava aprender a querer alguma coisa.
Qualquer coisa.
Uma preferência.
Uma opinião.
Uma escolha.
Porque alguém que nunca escolheu nada não poderia simplesmente acordar um dia sabendo quem era.
Sam olhou novamente para o bloco.
Então escreveu uma nova frase.
“Perguntar o que ele quer fazer.”
Parou.
Franziu a testa.
E acrescentou outra.
“Não aceitar ‘não sei’ como resposta.”
Aquilo arrancou um pequeno sorriso dele.
Porque já conseguia imaginar exatamente como a conversa aconteceria.
Provavelmente seria horrível.
Constrangedora.
Silenciosa.
Mas talvez funcionasse.
Talvez.
Porque a terapeuta tinha razão sobre uma coisa.
Eles passaram anos tentando apagar o Soldado Invernal.
Prendê-lo.
Silenciá-lo.
Escondê-lo.
E nada disso resolveu.
Então talvez estivesse na hora de tentar algo diferente.
Não ensinar uma arma a deixar de existir.
Mas ensinar uma arma a viver.
Sam apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou encarando suas anotações.
Ainda não tinha um plano.
Ainda não tinha respostas.
Mas pela primeira vez desde que aquela ideia surgiu, achava que estava fazendo a pergunta certa.