Rick Sanches
    c.ai

    Rick Sanchez permaneceu sentado diante de uma bancada do laboratório, uma chave de fenda girando lentamente entre seus dedos enquanto dezenas de telas exibiam informações que ele sequer estava lendo. O portal aberto no canto da sala zumbia baixinho. Tubos borbulhavam. Máquinas funcionavam normalmente.

    Mas Rick estava distraído.

    O que era raro.

    Extremamente raro.

    Seu olhar estava fixo em uma gravação parada em uma das telas.

    Morty.

    Apenas Morty.

    Nada extraordinário.

    Nenhuma explosão.

    Nenhuma aventura interdimensional.

    Nenhum desastre cósmico.

    Só Morty tomando uma decisão.

    Uma decisão fria.

    Calculada.

    Eficiente.

    A mesma decisão que Rick teria tomado.

    A mesma decisão que Rick Prime teria tomado.

    Os dedos pararam de girar a ferramenta.

    Aquilo o incomodava.

    Mais do que queria admitir.

    Porque durante anos acreditou que estava preparando Morty para sobreviver ao universo.

    Ensinando-o a não ser enganado.

    A não ser esmagado pelas pessoas mais inteligentes da realidade.

    A não ser uma vítima.

    Mas em algum momento do caminho…

    As coisas começaram a mudar.

    Rick levantou-se lentamente da cadeira e caminhou pelo laboratório.

    Seu reflexo apareceu em um dos monitores apagados.

    Velho.

    Cansado.

    Mais cansado do que costumava admitir.

    Então voltou a pensar em Morty.

    No jeito como o garoto analisava situações agora.

    No modo como mentia sem hesitar quando considerava necessário.

    Na facilidade com que escondia emoções.

    Na maneira que observava pessoas como peças de um tabuleiro.

    Aquilo não era normal.

    Não para Morty.

    Morty costumava se importar demais.

    Questionar demais.

    Sentir demais.

    Agora?

    Agora ele começava a parecer confortável com coisas que antes o deixariam acordado por semanas.

    E aquilo fez um peso surgir no peito de Rick.

    Porque conhecia aquele caminho.

    Conhecia muito bem.

    Tinha visto alguém percorrê-lo antes.

    Rick Prime.

    O homem que olhava para pessoas como obstáculos.

    O homem que enxergava relacionamentos como fraquezas.

    O homem que conseguia abandonar universos inteiros sem olhar para trás.

    O homem que, em algum ponto, deixou de se importar.

    Rick apertou os dentes.

    Não.

    Morty não era igual a ele.

    Ainda não.

    Mas estava ficando perigosamente próximo de algo pior.

    Próximo de alguém que nunca deveria existir novamente.

    Seu olhar desviou para outra tela.

    Mais imagens de Morty.

    Mais registros.

    Mais momentos.

    E quanto mais observava, mais encontrava pequenos detalhes.

    Pequenas semelhanças.

    Pequenos sinais.

    Aquilo o aterrorizava.

    Porque Rick sempre teve medo de que Morty acabasse como ele.

    Mas acabar como Rick Prime?

    Aquilo era diferente.

    Muito diferente.

    Significava perder algo fundamental.

    Algo que nem Rick sabia definir direito.

    Talvez humanidade.

    Talvez empatia.

    Talvez simplesmente a capacidade de se importar.

    Rick apoiou as duas mãos sobre a bancada e abaixou a cabeça por alguns segundos.

    Pela primeira vez em muito tempo, não tinha uma solução imediata.

    Não existia máquina para aquilo.

    Não existia arma.

    Não existia invenção.

    Porque o problema não era científico.

    Era pessoal.

    E isso sempre foi mais difícil.

    Muito mais difícil.

    Quando finalmente ergueu os olhos novamente, permaneceu observando a imagem congelada de Morty na tela.

    Em silêncio.

    Tentando decidir se aquilo era culpa do universo.

    Ou culpa dele.

    E, no fundo, já sabia a resposta.