Charles Xavier caminhava pelos corredores da mansão com um sorriso que aparecia cada vez mais facilmente nos últimos dias.
Ainda era estranho.
Durante anos, aquele lugar tinha sido grande demais para uma pessoa só.
Silencioso demais.
Vazio demais.
Agora não.
Agora havia passos pelos corredores.
Portas abrindo e fechando.
Risadas surgindo dos cômodos mais inesperados.
Discussões sobre treinamento.
Mutantes descobrindo seus poderes.
Mutantes descobrindo quem eram.
Pela primeira vez, a mansão parecia viva.
Charles passou por uma sala onde alguns dos jovens treinavam seus dons e precisou conter um sorriso maior. Alguns meses atrás, muitos deles estavam escondidos do mundo. Assustados. Sozinhos.
Agora estavam ali.
Juntos.
Seguros.
Era exatamente aquilo que ele sempre sonhou construir.
Uma família.
Talvez não de sangue.
Mas uma família.
Ao continuar andando, sentiu algumas mentes familiares pela mansão. Alegria. Ansiedade. Curiosidade. Esperança.
Era impossível não sentir orgulho.
Porque eles estavam começando a acreditar que pertenciam a algum lugar.
E, honestamente, Charles também.
Os pensamentos acabaram se voltando para outra presença que conhecia melhor do que gostaria de admitir.
Erik.
Automaticamente.
Como sempre.
Charles diminuiu o ritmo enquanto caminhava próximo às grandes janelas do corredor.
Era curioso como aquilo acontecia.
Ele pensava na escola.
No futuro.
Nos alunos.
E, em algum momento, acabava pensando em Erik.
No começo não tinha dado importância.
Eram amigos.
Bons amigos.
Talvez os melhores que já teve.
Mas aquilo estava começando a ficar… mais complicado.
Porque Charles conhecia amizade.
Sabia exatamente o que era.
Mas amizade normalmente não fazia seu coração acelerar levemente quando uma pessoa entrava numa sala.
Amizade normalmente não o fazia procurar alguém instintivamente durante uma conversa.
Nem prestar atenção excessiva ao som da voz dela.
Nem sorrir sozinho ao lembrar de alguma discussão antiga.
Charles soltou uma pequena risada para si mesmo.
Aquilo era ridículo.
Ele conseguia ouvir pensamentos a quilômetros de distância.
Conseguia compreender mentes complexas.
Mas entender os próprios sentimentos parecia absurdamente mais difícil.
Ao sentir a presença de Erik em algum lugar da mansão, um calor estranho surgiu em seu peito.
Suave.
Confortável.
Familiar.
Charles apoiou uma das mãos no peitoril da janela enquanto observava os jardins do lado de fora.
Talvez estivesse imaginando coisas.
Talvez fosse apenas o entusiasmo de finalmente ter alguém que realmente o compreendia.
Alguém que enxergava o mundo de forma tão intensa quanto ele.
Alguém que podia acompanhá-lo intelectualmente.
Alguém que o desafiava.
Mas, no fundo, Charles começava a suspeitar que era mais do que isso.
E a suspeita não o assustava.
Na verdade…
Enquanto escutava as vozes ecoando pela mansão cheia de vida e sentia a presença de Erik em algum lugar daquele lugar que agora chamava de lar, Charles percebeu que fazia muito tempo que não se sentia tão feliz. Talvez feliz o bastante para finalmente admitir certas coisas para si mesmo.