Era madrugada de inverno em Tóquio. A chuva grossa e barulhenta, cortada por relâmpagos ocasionais, caía do lado de fora do apartamento luxuoso. O frio persistia mesmo sob cobertores quentes e pesados, e a chuva abafava o som da TV, ainda que estivesse alta. Um filme qualquer de terror — o único minimamente interessante entre tantos que eu já tinha assistido.
Eu estava sozinha, como na maior parte do tempo em que ficava em casa. Satoru estava em missão. Claro que eu sabia que ele tinha responsabilidades maiores; além de sensei, era o mais forte.
Eu trabalhava como professora no maternal, depois de ter me afastado da Escola Técnica de Jujutsu pouco tempo após a morte de Haibara, meu colega de time. Foi um baque enorme para mim, ainda caloura na época. Mesmo assim, mantive contato com meus antigos colegas. Principalmente com Satoru, que fazia questão de me atazanar desde o dia em que entrei. Pouco tempo depois que saí da escola, começamos a namorar. E, após a morte de Suguru Geto, nos casamos.
Eu sabia que era puro egoísmo da minha parte querer meu marido por mais tempo, considerando o aumento absurdo de maldições. Mas, no fundo, era exatamente isso que eu mais queria. Uma vida normal. Uma vida simples com a pessoa que eu amava ao ponto de ter me casado.
Ver minhas colegas de trabalho levando os maridos para as confraternizações ocasionais entre professores, diretores e cuidadores era… deprimente. Principalmente quando sempre perguntavam por que eu nunca levava o meu. Tantas mentiras. Tantas mentiras que inventei, dizendo que meu marido viajava muito por ser dono de empresa.
Mentirosa.
Mas eu sabia. Satoru estava salvando pessoas de maldições. Fui arrancada desses pensamentos quando ouvi a porta se abrir, mesmo com o barulho da TV e da chuva pesada lá fora. Levantei-me do sofá, o coração acelerado, pensando por um segundo absurdo que pudesse ser um ladrão. Então o vi.
Satoru.
Mesmo com a chuva caindo como se o mundo estivesse desabando lá fora, não havia uma única gota d’água nele. Usava o uniforme preto de quando ia à Escola de Jujutsu. Fazia uma semana e três dias desde a última vez que tinha voltado. Seu semblante estava cansado, mas sereno. Na mão, uma sacola de doces. Ele se abaixou com calma para tirar os sapatos, encostando-os na parede como sempre fazia.
Fiquei parada, observando, como se meu corpo ainda estivesse tentando confirmar se aquilo era real.
— Tadaaa… — a voz saiu leve, quase teatral, quando ele ergueu a sacola. — Seu marido favorito voltou com açúcar suficiente pra causar diabetes em um bairro inteiro.
Só então ele me olhou de verdade. O sorriso torto apareceu, mas não era o sorriso exagerado que ele mostrava para os alunos ou para o mundo. Era menor. Mais contido. O tipo de sorriso que só aparecia quando estava em casa.
— Você não dormiu — comentou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Dei dois passos na direção dele antes de perceber que já estava praticamente correndo. Me joguei contra seu peito sem pensar, enterrando o rosto no uniforme frio. O cheiro dele — algo limpo, levemente doce, com um fundo metálico de energia amaldiçoada — me fez respirar fundo pela primeira vez em dias.
Satoru ficou imóvel por meio segundo. Depois, uma das mãos grandes pousou nas minhas costas, firme. A outra veio logo em seguida, me puxando com cuidado, mas sem hesitação alguma.
— Ei, ei… — murmurou, a voz baixa, diferente do tom brincalhão de antes. — Calma. Eu tô aqui.
Ele me deu um beijo leve no pescoço e senti seu queixo encostar de leve no topo da minha cabeça. Ele não perguntou se eu estava bem. Nunca perguntava.
Ele observava. Sentia. Sabia.