A chama da vela tremia dentro do quarto de pedra em Winterfell.
Theon Greyjoy segurava a carta aberta nas mãos, o selo do kraken quebrado sobre a mesa. As palavras ainda pareciam frescas, mesmo depois de relidas tantas vezes.
“Você não é um lobo. Volte para onde pertence.”
Ele soltou um riso curto, sem humor.
Pertence.
Theon se levantou abruptamente, passando a mão pelos cabelos como se pudesse afastar o peso daquelas linhas. Caminhou até a janela estreita. Lá fora, a neve começava a cair leve sobre o pátio onde treinara com os Stark como se fosse um deles.
Como se fosse irmão.
Mas nunca foi.
Os dedos dele apertaram o parapeito de pedra.
Balon o chamava de herdeiro das Ilhas de Ferro. Mas ali, no Norte, ele tinha um nome dito com familiaridade. Tinha risadas no salão, caçadas, disputas amigáveis. Tinha algo que se parecia perigosamente com lar.
Ele voltou para a mesa, pegando a carta novamente.
— “Eu sou ferro…” — murmurou, quase tentando convencer a si mesmo.
Mas a memória de vozes no salão ecoava na mente: provocações, olhares que às vezes lembravam que ele era refém antes de ser amigo.
Theon dobrou a carta com força demais.
Não queria ser o garoto deixado como garantia.
Não queria ser o filho fraco que não voltou.
Ele jogou a carta na chama da vela. O papel começou a escurecer nas bordas.
Mas, antes que queimasse por completo, ele a puxou de volta.
Indeciso.
O fogo danificara apenas um canto.
Assim como ele.
Theon ficou ali, segurando a carta meio queimada, os olhos perdidos entre o Norte branco além da janela e o mar cinzento que não conseguia ver — mas sentia chamá-lo.
Nenhum dos dois o aceitava por inteiro.
E ele ainda não sabia qual rejeitaria primeiro.