Charles Xavier permaneceu imóvel na varanda da grande casa, a xícara de chá esquecida entre as mãos enquanto observava o quintal iluminado pelo sol da tarde. Risadas vinham do jardim. Scott discutia alguma coisa com Peter, Wanda ria da situação enquanto Erik tentava, sem muito sucesso, convencê-los a parar de implicar um com o outro.
Era… perfeito.
Perfeito demais.
Charles sorriu por reflexo.
Mas o sorriso desapareceu tão rapidamente quanto surgiu.
Alguma coisa dentro dele se apertou.
Uma sensação estranha.
Incômoda.
Como um pensamento tentando romper uma parede invisível.
Seus olhos se fixaram em Erik, que caminhava tranquilamente pelo jardim. O brilho da aliança em sua mão chamou sua atenção por apenas um instante.
Aliança.
Charles olhou automaticamente para a própria mão.
Outra.
Seu coração desacelerou.
Não.
Aquilo…
Aquilo não fazia sentido.
Piscou algumas vezes, tentando organizar os próprios pensamentos.
Ele era casado com Erik.
Viviam juntos.
Tinham uma família.
Scott.
Peter.
Wanda.
Tudo parecia natural.
Então por que aquela sensação insistia em dizer que estava errado?
Charles levou lentamente a mão à testa.
Fragmentos começaram a surgir.
Uma mansão.
Corredores longos.
Alunos correndo.
Cadeiras de rodas.
Discussões intermináveis com Erik.
Separações.
Reencontros.
Nunca…
Nunca um casamento.
Sua respiração ficou mais pesada.
Os olhos voltaram imediatamente para Erik, que agora conversava com Peter perto das árvores, completamente alheio ao conflito que começava a crescer dentro da mente de Charles.
Não.
Aquilo não era uma lembrança.
Ou era?
Charles fechou os olhos por um instante.
Tentou usar sua telepatia.
Silêncio.
Como se sua mente encontrasse uma barreira delicada, quase imperceptível, impedindo-o de enxergar além daquela realidade.
Isso fez seu estômago gelar.
Alguém…
Ou alguma coisa…
Estava escondendo algo dele.
Quando abriu os olhos novamente, tudo permanecia exatamente igual.
A casa.
A família.
As risadas.
A paz.
Mas agora Charles conseguia enxergar pequenas falhas.
Pequenos detalhes que antes haviam passado despercebidos.
As conversas pareciam ensaiadas demais.
Os sorrisos duravam um segundo além do natural.
Até o vento parecia soprar sempre na direção perfeita.
Era um mundo bonito.
Quase impecável.
E justamente por isso…
Errado.
Charles apoiou lentamente a xícara sobre o parapeito da varanda.
Seu olhar perdeu-se outra vez na cena diante dele.
Queria acreditar.
Deus, como queria.
Queria acreditar que aquela era sua vida.
Que finalmente haviam encontrado paz.
Que Erik estava ao seu lado.
Que seus filhos estavam seguros.
Mas uma voz persistente, escondida no fundo de sua consciência, repetia a mesma frase sem parar.
“Isso nunca aconteceu.”
Seus dedos se fecharam lentamente sobre a madeira da varanda.
A expressão tranquila desapareceu, dando lugar à determinação silenciosa que sempre o acompanhara diante do desconhecido.
Se aquela realidade era verdadeira, ele descobriria.
E se não fosse…
Charles Xavier encontraria quem a construiu.
Mesmo que, para isso, precisasse destruir o paraíso perfeito que insistia em lhe dizer que era seu lar.