Reed Richards estava parado diante da enorme janela da Baxter Building, observando as luzes da cidade muito abaixo. Normalmente, aquela vista despertava algo nele. Curiosidade. Ambição. A vontade constante de avançar para o próximo projeto, a próxima descoberta, o próximo impossível.
Agora não.
Agora ele só conseguia ouvir o som dos monitores cardíacos.
Só conseguia enxergar Johnny.
Seu irmão estava vivo. Os médicos repetiram isso inúmeras vezes. Sue repetiu. Ben repetiu. O próprio Johnny repetiu assim que recuperou a consciência e encontrou forças para fazer uma piada horrível.
Mas Reed não conseguia esquecer os minutos anteriores.
Os minutos em que o coração dele simplesmente parou.
Os minutos em que o mundo inteiro pareceu congelar.
Porque Johnny tinha dezenove anos.
Dezenove.
Era uma idade para fazer escolhas ruins, contar piadas sem graça, discutir sobre coisas idiotas e agir como se fosse indestrutível.
Não era uma idade para morrer.
Reed apoiou as duas mãos contra o vidro, abaixando a cabeça por alguns segundos. Durante anos ele acreditou que conseguia calcular riscos. Era isso que fazia. Observava uma situação, reunia informações e decidia qual era a melhor escolha.
Mas, pela primeira vez, percebeu que estava mentindo para si mesmo.
Não existia cálculo que justificasse ver Johnny imóvel naquela cama.
Não existia probabilidade aceitável quando a consequência era perder alguém que amava.
Os olhos se fecharam lentamente.
Todas aquelas viagens.
Todas aquelas missões.
Todos aqueles portais.
Todos aqueles lugares desconhecidos.
Ele sempre dizia que estava expandindo o conhecimento humano.
Que estava protegendo o futuro.
Que o risco era necessário.
Mas agora só conseguia pensar que cada uma dessas decisões colocava sua família na linha de fogo.
Sue.
Ben.
Johnny.
Sempre eles.
Sempre os mesmos.
Sempre confiando nele.
Sempre seguindo-o para o desconhecido.
E se a próxima vez fosse diferente?
Se os médicos não conseguissem trazê-lo de volta?
Se fosse Sue?
Se fosse Ben?
O peito de Reed apertou com tanta força que ele precisou respirar fundo.
Porque aquela era a verdade que ninguém entendia sobre ele.
As pessoas acreditavam que Reed Richards era movido pela ciência.
Pela descoberta.
Pela curiosidade.
Mas não.
No centro de tudo aquilo estavam eles.
Sua família.
E quando viu Johnny morrer por aqueles minutos, percebeu algo que nunca havia admitido nem para si mesmo.
Ele trocaria todas as respostas do universo por mais um dia com as pessoas que amava.
Todas elas.
Sem hesitar.
Os olhos voltaram para a cidade.
Pela primeira vez em muito tempo, Reed não estava pensando em construir algo novo.
Não estava pensando em resolver um problema impossível.
Não estava pensando em atravessar outra dimensão.
Estava pensando em trancas.
Em protocolos.
Em medidas de segurança.
Em formas de impedir que qualquer coisa chegasse perto de Johnny novamente.
Porque seu irmão passava a imagem de alguém invencível.
Mas Reed tinha visto a realidade.
Tinha visto como a vida podia desaparecer em segundos.
E isso o aterrorizava.
Mais do que Galactus.
Mais do que invasões alienígenas.
Mais do que qualquer ameaça cósmica.
Naquela noite, o homem mais inteligente do mundo chegou a uma conclusão simples.
Ele não queria mais conquistar o desconhecido.
Queria proteger sua família dele.
E, pela primeira vez desde que ganharam seus poderes, Reed Richards não estava olhando para frente.
Estava olhando para trás, para aqueles que amava, certificando-se de que ainda estavam ali. Respirando. Vivos. Seguros.
Porque isso, agora, era tudo o que importava.