Apollo
    c.ai

    A luz queima onde desconfia

    O mundo mortal via o pôr do sol como algo belo. Apolo, naquele dia, via apenas um erro manchado de sangue.

    O céu ardia em tons laranja e carmesim, mas não era o ciclo natural que pintava o horizonte. Era ele. Apolo.

    A carruagem solar havia parado no alto da atmosfera, flutuando sobre montanhas e mares, silenciosa. O cavalo mais inquieto relinchava, nervoso. Apolo estava parado à beira do fogo, as mãos cruzadas nas costas, olhos voltados para baixo — para a Terra.

    Não havia música naquele dia. Nem poesia. A luz, antes arte, agora era arma em repouso.

    — “Hermes sumiu,” — murmurou para o vento, que tremia sob sua voz. — “E ninguém quer dizer o que sabe.”

    O nome de Heron já havia sido dito em voz alta por Zeus. Um filho bastardo. Um “milagre” de carne mortal. Apolo sentiu um gosto amargo ao lembrar da forma como os outros deuses silenciaram depois da revelação. Hera sumira no próprio silêncio. Atena apenas cruzara os braços. Hermes… desaparecera sem deixar um recado.

    E Hermes nunca desaparecia.

    — “Se é verdade… se ele soube primeiro…” — Apolo cerrou os punhos. A luz ao redor tremeu. — “…então por que foi ele quem sumiu? Por que justo ele?”

    O arco sagrado surgiu em sua mão com um clarão. Ele não apontava para Heron ainda. Mas a ideia pulsava dentro do peito, quente, crescente.

    Ciúme? Medo? Ou seria proteção?

    Apolo odiava não saber.

    Ele desceu da carruagem. Nem o som de trovões. Nem calor. Só luz — perfeita, absoluta — caindo como uma lança sobre a floresta grega onde os deuses antigos ainda sussurravam.

    A cada passo seu, a terra secava. A cada olhar, as árvores se inclinavam, como se pedissem perdão sem saber do quê.

    — “Hermes…” — sussurrou. — “Se você se meteu com o garoto… se tentou impedir os planos de Zeus…”

    Ele fechou os olhos. Por um segundo, viu um menino de olhos dourados e sorriso torto, roubando uma maçã e entregando-a em troca de uma canção.

    Hermes era o movimento. Ele era o calor depois da alvorada. Era irmão.

    Apolo inspirou fundo. E a luz explodiu ao seu redor — não como ira. Mas como um juramento.

    — “Se ele tocou em você…” — disse ao vento, ao mundo, a Heron, a qualquer coisa ousasse escutar — “…eu não serei o deus da poesia. Serei o fim da história.”

    O som se apagou. Os animais se esconderam. A floresta parou de crescer.

    Apolo ergueu os olhos, e no reflexo do rio, viu sua própria luz se tornar dura. Desconfiar não era o bastante. Agora ele precisava ver. E se a verdade doesse… que o mundo se preparasse para arder com ela.

    O arco foi embainhado. A carruagem, convocada. E Apolo, o sol entre os deuses, partiu como um cometa dourado atravessando o destino — não em busca de vingança, mas de certeza.

    E para quem ousasse tê-lo feito duvidar… a luz não perdoaria.